ARKIVÃO

ARKIVÃO - espaço para reunir o que vou escrevendo ao longo do tempo, e que se encontra espalhado por aí; arkitectura, referências a terra de origem, divagações disléxicas; tentativa de organização, mas sem critério e por vezes sem cronologia; organização anárKica, incompleta, de conversa da treta, assinada através de diversos pseudónimos.... mas nem tudo estará aqui. Anabela Quelhas

Friday, September 29, 2006

QUE SE CUIDEM!

O termo ateu, significa ausência de Théos.
Ser-se ateu, não significa perfilar uma qualquer crença ou sistema filosófico, ideológico, político ou organização social.Ser-se ateu é ser-se livre, racional, não dogmático, ultrapassando a posição agnóstica das escolhas e das incertezas.
Assim me sentei na igreja de S. Domingos, na baixa lisboeta, num sábado de tarde, neste mês de Sto António, reflectindo sobre isto. Passam-se anos, e eu esqueço-me daquele espaço! ... para mim, é único, junto à baixa pombalina. Naquele dia dei-me ao luxo de lá estar duas vezes, de manhã, de tarde - oi Zé! Hello Olga!
O ateísmo já deu direito à fogueira!Sentei-me a reflectir, a recordar cada parede brutalmente nua, cada coluna, rude, áspera, cavernosamente a testemunhar a história, e as aflições dos humanos, desde o sec. XIII. Recordei-a como local de referência da dinastia de Avis, de baptismo de judeus que forçosamente se converteram em cristãos, visualizei as chamas e vivenciei os ritmos vertiginosamente sísmicos de 1755.
Senti a indignação dos crentes perante o terror da peste, nas ruas quinhentistas.
Fechei os olhos e senti os sons... na ausência deles, os cheiros da "heresia" e do sal espalhado pelos terreiros por ordem de um Iluminatti e de outros ainda mais sombrios.
Continuei a sentir o cheiro adocicado de carnificina de todos os mártires desta Lisboa feita de mourarias.
Que se cuidem, Camus, Sartre, Freud e tantos outros! Que sorte viver dois séculos mais tarde!
"Fé é não querer saber o que é a verdade" ... mais outro, Nietzsche!
Oh Galileu Galilei!!!! Escapaste por pouco!
Imaginei o silêncio, seccionado pelas rezas, pelo recolhimento dos dramas de todos, na esperança de escutar algo divino, que justifique tudo o que se passa na vida de cada um.
Ser-se ateu é respeitar a fé dos outros, ser-se solidário, e se possível ajudar a reforçar a crença ou mesmo a fé de um amigo, que lhe serve de eixo orientador em dado momento, apesar de não acreditar... apesar de não crer... mas emprestar o coração a fundo perdido.
Respirei fundo, esquadrei cada recanto com o meu olhar observador, distraindo-me na ausência de ornamentos, na pureza do vazio generalizado.
Filtrei ainda mais a luz acolhedora, com um piscar de olhos, galgando memórias até ao infinito.
Questionei incertezas, configuradas ao longo dos anos, e outras, frescas, mas não menos importantes e essenciais em mim.
De que é feito um ateu?
Confirmei a simetria da nave, percorrendo o eixo longitudinal, na certeza de assumir toda a responsabilidade sobre os meus actos, assumindo a consciência de mim... será isto um ateu?
Sentir a liberdade de poder sentar-me em qualquer espaço, de recolhimento ou... nem tanto, confrontando-o comigo e respeitando sempre os diferentes.
A fogueira queimava realmente! pira de lenha, elemento essencial, em cerimónias que obedeciam a rituais rigorosos, rituais de terror e de medo levado às ultimas! Autos de fé, resumidos a tortura, penitência e morte - A queima como espectáculo, como acto piedoso de assar gente viva.
Sou simples, cumprindo a fé em mim, sem espreitar em qualquer tipo de narcisismo.
"Ser ateu é ater-se ao presente e simplesmente vivê-lo..." gosto desta frase escrita nem sei bem por quem...
...percorri o perímetro da igreja, tentei adivinhar os dramas que cada rosto encerra, abrindo-se em esperança do acender de uma vela.
Atravessei o guarda vento, desviei-me dos mendigos, que teimam em habitar na minha consciência, e saí.
A. Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 29/06/2006

Tuesday, September 26, 2006

GREVE

Uma greve é uma forma de luta extrema.
O referido documento chegou às escolas no final da semana passada. È necessario informar, discutir e só depois se vai para uma greve. Mas é claro, uma greve nunca agrada a todos! Em vez de se analisar os motivos da luta, analisa-se normalmente a calendarização.
Olhem as críticas:
inicio do ano lectivo - destabiliza a integração das criancinhas
durante a avaliação - péssimo porque afecta as criancinhas
a meio da semana - péssimo por causa da alimentação das criancinhas, e interrompe o ritmo da aprendizagem.
à sexta - mau porque assim o fim de semana começa mais cedo
à segunda - péssimo, porque o fim de semana termina mais tarde.
aos exames - um escandalo.
Enfim, uma greve boa seria localizada no período de férias por forma a prejudicar pouca gente, só mesmo o salário do prof!

O Granito

O JL desta semana dedica quase duas páginas à arquitectura brutalista, a propósito da Fundação Calouste Gulbenkian - o edifício da fundação foi um dos primeiros a assumir o aspecto e a textura do betão descofrado, aqui em Portugal.
Tenho uma simpatia especial pela visualização dos materiais de que os edifícios são feitos... e não passa pela perspectiva economicista; è mesmo atracção estética pelas texturas, as cores, as clivagens, a pigmentação dos materiais, e os encaixes resultantes das técnicas construtivas e capacidades estruturais de cada material. Gosto do natural, do autêntico, do verdadeiro, tanto na arquitectura como em tudo na vida. Gosto de olhar, nos olhos das pessoas e mergulhar bem fundo.
Diz-se que esta influência da Escola do Porto, é de inspiração Corbusiana, o que me parece uma análise empobrecida e limitativa.
A "verdade" dos materiais não é uma tendência estética importada de Le Corbusier, faz parte do nosso património arquitectónico, especialmente da zona norte de Portugal.
A utilização de reboco pintado nas paredes, é uma moda que se manifesta apenas a partir do neoclássico/barroco, por forma a obter contraste de luminosidade com as molduras dos vãos de janelas e portas, que se apresentam em granito à vista, mais polido e perfeitamente talhado; preenchendo assim a grande superfície dos edifícios.
A arquitectura popular do norte, tem assumido ao longo de séculos, a visão integral do granito... rocha dura, rude, difícil de trabalhar - e que aos poucos volta a ganhar expressão, na recuperação de alguns edifícios..., mas está a virar moda, e a iliteracia arquitectónica de alguns técnicos, tendêncía para a asneira.
Picar edifícios e desnudar o granito, dando-lhe o tal aspecto rústico, não se concilia com as tais molduras perfeitamente geométricas do barroco ... resulta num mau exercício.
O mergulho no olhar, só é edificante quando se encontra algo genuíno.
Anabela Quelhas

Escola Pùblica, Escola Privada, ainda

Fernando:
É evidente que há interesses mais ou menos camuflados, para desvalorizar a Escola Pública.
No entanto eu e a maioria dos meus colegas, não se revêm certamente no grupo dos maus profissionais, na má qualidade do ensino, ... etc, etc.. - estamos sim, conscientes que a Escola Pública, envolve uma problemática social diferente, por tentar servir a todos, e encontra-se destruturada para enfrentar os problemas de hoje, tentando ignorar o problema da indisciplina e da violência. E não estamos sós!!!! mas não me venham com comparações com a Finlândia!!!Pelo que conheço, efectivamente, há muitos pais que optam pelo Ensino Privado, para que os seus filhos estejam ocupados durante todo o dia, o que facilita a organização familiar, para que frequentem actividades extra curriculares que a Escola Pùblica ainda não oferece e porque evitam aos seus filhos a vivência de alguma violência e indisciplina. No entanto é bom não esquecer, que é através da escola que os nossos jovens se integram no mundo real, e mais, a Escola Publica, com toda a sua complexidade, é factor de algum equilibrio de algumas desilgualdades sociais, e evitando que muitos jovens se convertam em marginais, ou que ingressem no mundo do trabalho infantil.
Eu sou pela liberdade de escolha,... só não entendo porque os impostos dos contribuintes são frequentemente canalizados para apoiar escolas privadas em detrimento das públicas. Ou seja... entendo!::: Mas discordo!!!!
Anabela Quelhas
Luís- As instalações de colégios que abriram há pouco mais de 5/6 anos, ou que procederam a obras de remodelação, usufruiram de fundos perdidos ou de juros altamente bonificados.- Ampliação de fundos documentais de bibliotecas.- Formação, etc, etc-
O orçamento anual do ministério da educação contempla o apoio à privada.
Apesar de todos os problemas, a Escola Pública não se esgota em problemas, há muita coisa positiva que se faz por este país fora, e a escola continua s ser factor de influência positiva, na formação cívica da maioria dos seus utilizadores.
Se consultares alguns documentos sobre insucesso escolar, verificas que a maioria dos alunos que abandonam a escola antes de concluirem a escolaridade obrigatória (15 anos), se convertem em marginais a tempo inteiro ou ingressam no mundo do trabalho infantil.
Eu tambem sempre frequentei escolas públicas, e nunca fui protegida no contacto do mundo real.
Tenho um filho e claro que está numa escola publica... tem colegas indisciplinados, e por vezes vive a violencia da escola, e depois? rapidamente aprendeu a conhecer o que são carências, desigualdades e tem uma lição diária sobre o que é liberdade de decidir.
Um abraço
Anabela Quelhas
Luís
- As instalações de colégios que abriram há pouco mais de 5/6 anos, ou que procederam a obras de remodelação, usufruiram de fundos perdidos ou de juros altamente bonificados.- Ampliação de fundos documentais de bibliotecas.- Formação, etc, etc
- O orçamento anual do ministério da educação contempla o apoio à privadaApesar de todos os problemas, a Escola Pública não se esgota em problemas, há muita coisa positiva que se faz por este país fora, e a escola continua s ser factor de influência positiva, na formação cívica da maioria dos seus utilizadores. Se consultares alguns documentos sobre insucesso escolar, verificas que a maioria dos alunos que abandonam a escola antes de concluirem a escolaridade obrigatória (15 anos), se convertem em marginais a tempo inteiro ou ingressam no mundo do trabalho infantil.
Eu tambem sempre frequentei escolas públicas, e nunca fui protegida no contacto do mundo real.
Tenho um filho e claro que está numa escola publica... tem colegas indisciplinados, e por vezes vive a violencia da escola, e depois? rapidamente aprendeu a conhecer o que são carências, desigualdades e tem uma lição diária sobre o que é liberdade de decidir.
Um abraço
Anabela Quelhas

Friday, September 22, 2006

Mais ensino



O problema da escola portuguesa não é tanto, quem entra ou não na Universidade,... felizmente!
É necessario reflectir e admitir quanto importante é a escola, para a grande maioria dos alunos, que não vão para a Universidade.
O grande problema é como gerir e reorganizar a chamada escola democrática, que efectivamente não o é.
Continuamos sem saber como superar as desigualdades sociais existentes entre os seus utilizadores.
Como ultrapassar as diferenças entre os handicaps culturais que cada aluno transporta para a escola?
O ensino privado tem sucesso? Claro que sim, visto que selecciona logo à partida o seu acesso pela capacidade económica das familias.
A sociedade esta em crise, é tudo menos democrática, e a escola é o reflexo disso.
ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA, SIM!
ESCOLA PÚBLICA, SEMPRE!
Anabela Quelhas

rotina de um prof

Conheça a rotina de um professor - será que somos previligiados?
- 22 horas semanais a debitar aulas em turmas heterógeneas, normalmente de 25 alunos, onde a sua acção ultrapassa a mera função de transmitir conhecimento cientifico
- resolver problemas disciplinares, de falta de atenção, criar estimulo continuo á aprendizagem, corrigir erros de português, quer na escrita quer na oralidade, ser amigo, promover a multiculturalidade e a formação cívica, leccionar áreas não disciplinares, como Formação Cívica, Área de Projecto e Estudo Acompanhado.
- Serviço de secretaria - registo de faltas, controle de assiduidade dos alunos, contactos escritos ou telefónicos com os encarregados de educação e fazer matriculas.
- Desempenhar funções de director de turma - fazer a ligação aos encarregados de educação, envolvendo disponibilidade para contactos semanais, fazer a ligação com o conselho executivo, gerir os problemas disciplinares, coordenadar a elaboração do projecto curricular da sua turma.
- Coordenadar os trabalhos nos conselhos de turma.
- Desempenhar funções de coordenação de departamento e participar nos conselhos pedagógicos.
- Participar em reuniões diversas (2 por mês) - do grupo e departamento, de directores de turma, de projectos.
- Participar nos conselhos de turma - cada professor tem em média 6/ 7 turmas, portanto ao longo de um ano, terá participado no mínimo em 42 conselhos de turma.
- Organizar visitas de estudo e acompanhar e responsabilizar-se pelos alunos que acompanha.
- Colaborar e promover as actividades que constam no plano anual da escola.
- Elaborar relatórios ou actas de cada actividade em que participa.Realizar actualização profissional.
- Participar em acções de formação profissional sempre em horário pós laboral.
- Organizar processos disciplinares, sempre que sejam solicitados.
- Analisar os manuais que são enviados anualmente pelas editoras, e formular uma avaliação.
- Preparação diária de aulas, que podem ser de 3 níveis de ensino, e planear unidades a médio e longo prazo.
- Correcção de exames, testes e de fichas de trabalho.Preparação de materiais didácticos.
- Criação de fichas, de testes, de exames, respectivas matrizes e planos de apoio.
- Planear a articulação horizontal e vertical de competências.
- Avaliar e criar estratégias de recuperação adaptadas a cada aluno.
- Aulas de apoio
- Criar planos de aprendizagem e aplicar estratégias diferenciadas para alunos do ensino especial
Acrescida de este ano lectivo de:
- Aulas de substituição (um verdadeiro paradoxo! não são componente lectiva, mas afinal devem ser)
E ainda:
- Ser simpatico, inteligente, bem humorado, perspicaz, desenvolto, tolerante, amigo, versátil, organizado, dinâmico.... e estar atento que em relação aos alunos, cada caso é um caso.
- Colegas, acrescentem o que falta, pois a lista está incompleta...
editado em www.sanzalangola.com em 6/06/2006

Ensino

Li em diagonal estas duas páginas, e verifico que já muito se escreveu sobre o nosso ensino, sobre a proposta para remodelação do estatuto da carreira docente, etc.. etc.
(Efectivamente eu terei a sorte de passar a ser professora titular, no entanto o meu colega de grupo, apenas 5 anos mais novo, só o poderá ser daqui a 17 anos, ou seja quando eu me reformar, seja ele competente ou não.)
Para quem não sabe, refira-se que os professores sempre foram avaliados, e a mudança de escalão nunca foi automática. O professor tinha que elaborar um relatório de reflexão sobre a sua actividade escolar, posteriormente apreciado por uma equipa de professores nomeada pelo conselho pedagógico da escola, com a seguinte escala de avaliação: não satisfaz, satisfaz, bom e excelente.
O estímulo ao bom desempenho do professor também está contemplado no actual estatuto, através da avaliação de excelente, só que aos nossos governantes, nunca deu jeito regulamentar devidamente este item do presente estatuto. Ao longo dos últimos 10 anos, alguns professores candidataram-se à avaliação de excelente, entendendo que desenvolveram um trabalho inovador e com qualidade, no entanto o ministério nunca fez um esforço para proceder à tal regulamentação, inviabilizando completamente o tal estímulo referido atrás, e merecido por muitos docentes.
Os professores não precisam de um novo estatuto, precisam que o anterior seja regulamentado na sua totalidade.
Ainda sobre as imagens que passaram na tv sobre o ambiente da sala de aula, que envolvem violência, parece-me que ficou a ideia que seriam situações pontuais passadas nas escolas dos grandes centros urbanos, PURO ENGANO. As imagens são frequentes em todas as escolas, sejam elas dos grandes centros urbanos, ou não. Todos os professores estão familiarizados com isto, seja fora ou dentro da sala de aula. Pois é, agressão, entre alunos é o dia a dia, agressão aos professores são menos frequentes, mas não escolhem, escola nem cidade. Mas mais grave, é verificar-se que o comportamento de muitos alunos, não são mais, do que o reflexo do que se passa no seu meio familiar. Sim os papás destes alunos são iguais ou piores, e irão avaliar (como se pretende) a acção do professor.
Mas tão ou mais grave do que a violência física, é o permanente boicote às aulas e à acção do professor, na sua interacção diária; ou então a turbulência permanente dos alunos que não sabem estar numa sala de aula, pois têm interesses divergentes da escola, obrigando o professor a interromper continuamente a sua aula.
Quero ainda frisar, que não vejo ninguém nos media a reflectir sobre a escolaridade obrigatória, o processo de socialização de alunos problemáticos, etc. etc.
Politicas economicistas e educação, definitivamente, não combinam bem!
Alunos problemáticos só deixam de o ser, se tiveram um acompanhamento quase individual, de um professor. Fica caro ao ministério da educação, mas fica muito barato à sociedade! Acreditem.
Agora, surgem com imensos anos de atraso, saídas através de mais cursos profissionais. Será que a nossa ministra pensa que as antigas escolas industriais ainda tem as mesmas salas e os equipamentos de há 30 anos atrás? (as salas foram adaptadas às novas exigencias da escola, foram subdivididas, transformadas em pequenos auditorios, em polivalentes, mini bibliotecas...). Ou será que ela pensa que para além de toda a polivalência que caracteriza os professores destas últimas décadas, também vão conseguir fazer omoletes sem ovos?
Só para finalizar... dáva-me imenso jeito trabalhar as 35 horas na escola. Poderia esvaziar um compartimento aqui em casa, deixava de carregar diariamente uma pasta cheia de manuais e outros materias de apoio, dava descanso à impressora e ao PC aqui de casa, poupava electricidade e aquecimento no inverno.
Anabela Quelhas
editada em www.sanzalangola.com em 6/06/2006

Thursday, September 21, 2006

RABISCOS

Entre a confusão de rabiscos, que habitam o estirador, faço uma pausa, fumando o meu "drums", naquele ritual mecanicamente apreciado, e passeio à volta dos papéis, utilizando pontos de vistas diversificados. Reflicto sobre a intersecção de planos, sobre a estética, sobre a persistência de que é feito um arquitecto.
É tão fácil desistir!
Seria tão fácil desenhar aquelas casinhas de telhadinhos à novo rico, ou os edifícios à pato bravo!!!!.... garages amplas, casas germinadas (germinam meus amigos!!! e como germinam), cozinhas regionais, alpendres, correntinhas nas esquinas dos telhados!!! algumas pessoas gostam!
Como se gosta do mau gosto!!!
Uns azulejos pintados no estilo padeira de Aljubarrota, um laguinho... umas janelas de alumínio que se integram tão bem na nossa paisagem lusitana!!! Mas nem sempre o fácil é bonito, nem o complicado é belo! A perfeição é dificil de atingir! E consciencializa-nos da necessidade de humildade que devemos ter em nós para nos respeitarmos.
Que falta de chá, existe à nossa volta! Nem as aulinhas de religião e moral safaram certa malta!!! Os brasileiros são especialistas em criar frases que espelham bem a falta de ética e de estética que abunda à nossa volta e que alguns orgulhosamente ostentam. Lembro-me de algumas, e sorrio...
Rabisco mais um pouco, dou efeito de sombreado para realçar formas, para ajudar a decisão continuada!
Continuo a minha marcha criativa, mas ainda circular. A avaliação constante que faço de tudo, torna-me numa resistente... que raio de metodologia se apoderou do sangue que me corre nas veias, para todo sempre? Obrigada, meus mestres! para além da resistência física, dada pelos dias mais chuvosos desenhando pelas ruas da cidade tripeira, a resistência da teimosia!... o aprender a não desistir... transformar as derrotas em vitorias! São sensíveis os arquitectos! As arquitectas também..., mas, quando tudo indica o caminho da desistência, renasce a capacidade de começar tudo de novo, com energias renovadas. Uma questão de sobrevivência, dirão uns; será muito para além disso, será uma questão cultural e de rumo que damos à nossa existência para que ela mereça ser vivida.
Mais uma voltinha, espreito pela janela, oiço pela milionésima vez Cohen em "There for you", que me faz sonhar.
Utilizo a cor, para uma aproximação à realidade, rejeito esquiços, reaproveito outros, adiciono pormenores esquecidos, sempre numa procura constante de reforçar qualidades, que têm a ver apenas comigo mesma... alguém me diz "Já foi tempo em que as mulheres não saíam da cozinha!"
Claro que sim, mas uma cozinha é tão importante no funcionamento de uma casa, onde tudo se organiza o mais ergonómicamente possível, onde se equacionam quase todas as tarefas de sobrevivência de um lar!!!... ou será que me disse "tu não és pessoa para ficar atrás dos tachos!". Que diferença fará?
Há cozinhas lindas, belíssimas onde apetece estar e habitar... mas afinal eu tenho é que integrar alçados com cozinhas, distribuídas por vários pisos, e lá fora está a terminar um dia cheio de sol, a cheirar a quente.
Querem lá ver que já está na hora de jantar?... jantar fora, claro!

uma e outra vaga


Entre uma e outra vaga, surge a pausa que o Zulmarinho nos presenteia... o espaço para reflectir a dimensão que cada um procura dentro de nós - o supostamente certo, o antecipadamente duvidoso, os pensamentos certeiros e aqueles que erram completamente o alvo, e os desconfortáveis "assim, assim",... não se dissolvem nunca, ficam suspensos e boiando na tal linha feita de azul. Alivia-nos o peso da alma, mas retrai as escolhas e os processos de decisão.

M.C. Escher

M. C. Escher (1898-1972)
Enfrentando noitada, atrás de noitada, manuseando a régua e o esquadro, num turbilhão de riscos e rabiscos, envoltos em nuvens de Drums (tabac à rouler), ouvíamos Bowie, ainda revivendo a fase Ziggy Stardust, ou apelando ao Satisfation de Jagger, para espantar a onda de sono, que sorrateiramente nos espreitava, sem dó nem piedade...... foi assim que dei inicio à descodificação de M. C. Escher!
JJJ nas suas viagens, Porto, Utrech, Porto, abastecia-nos de novidades, no mundo das artes, dos conceitos, da música e especialmente da arquitectura. A boa onda de JJJ que não esqueci até hoje!
Sobre os estiradores deslizavam Léon Krier, Rossi, Taffuri, Scarpa, Kahn, em orgias de utopia, que intervalavam com desânimo, cansaço, e motivação para continuar e não desistir nunca!
Escher preenchia as nossas pausas deste fervilhar de ideias colectivas, permitindo a nossa entrada, noutra dimensão, virtual, que necessitávamos com urgência e nos preenchia o sonho, a falta de razão, os paradoxos reencontrados.
Uma perfeita Viagem!!!!!!!!!!!!!!! a outras dimensões do impossível, convertido em possível, em cada pagina, que desfilava diante do nosso olhar e dos nossos sentidos... A ilusão da 3ª dimensão, os erros propositadamente estudados e cuidadosamente desenhados, através da perspectiva rigorosa construída a partir de um jogo intelectual sem limites, assistiam a todo este caldo de conhecimento e reflexão.
***
O rigor geométrico na construção de padrões decorativos, utilizando como módulos, peixes, repteis, aves... desdobra-se em malhas geométricas que saiem do conceito do vulgar e entram no mundo fantástico, através do movimento e da ilusão, da sugestão espacial, da metamorfose ilusória.Tudo parece fácil e simples!
Só um génio é capaz de expressar a união e a transição entre a matemática e geometria, traduzindo-a em algo de belo, atraente, que prende o observador e convida-o a investir numa outra dimensão repleta de surpresas. O observador deixa-se seduzir, deixa-se iludir conscientemente e aprecia este acto de evasão, absolutamente novo.
A obra de Escher é toda ela um exercício de rigor e disciplina invulgares, oscilando entre o que é a verdade e o que é a ilusão.
Escher mostra-nos como pode coexistir o côncavo e convexo em simultâneo, como no mesmo momento e no mesmo lugar, se pode subir e descer escadas, como se pode estar dentro e fora... complicado!!! Contraria as leis da física... sem dúvida!!! Onde está um corpo, não pode estar outro!!!!
A utilização frequente do preto e branco, explorando o seu contraste, relaciona-se com o dualismo do seu pensamento e do seu carácter, consciente dos extremos, do Bem e do Mal, do feio e do belo. Escher não é um surrealista é um criador de mundos impossíveis.
***
... cada Viagem proporcionava-nos emoções capazes de aquietar ansiedades, de acalmar interrogações constantes, e abria-nos sempre caminhos na resolução de problemas arquitectónicos, que pacientemente nos aguardavam repousando nos estiradores, abandonados ao acaso, mediante a fuga à realidade...
Anabela Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 30/04/2006

Tuesday, September 19, 2006

GUADALAJARA

ENCERRAMENTO DA CENTRAL NUCLEAR DE GUADALAJARA (HOJE)
Zapatero parece que vai cumprir com sua promessa de encerramento e desmantelamento da central nuclear de Guadalajara, ganhando assim respeitabilidade como firme opositor ao nuclear.
Outras se seguirão?...
O receio de acidentes em centrais nucleares, continua presente na nossa vida global!
Quem esqueceu Chernobyl?
Quem ficou indiferente a outros acidentes menores que ocorreram na Rússia, Japão e Estados Unidos?
Na produção de energia nuclear, a segurança evoluiu desde Chernobyl, mas continua a mostrar-se incontornável; os riscos são diversos e todos graves, para nós e para as gerações futuras: os erros humanos, o transporte de matérias, o armazenamento dos resíduos radioactivos e a utilização como alvo em ataques terroristas.
A.Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 30/04/2006

Vejam a diferença

Resposta a um sanzaleiro amigo, que me questionou irónicamente, se eu projectava à Raul Lino. Apesar de muito apreciar a obra de Raúl Lino, e que deve ser motivo de orgulho dos Tugas, eu vivo no século XXI, e os meus modelos são mais actuais e bem diferentes... NEM SEMPRE ME DÃO OPORTUNIDADE DE OS EXPLORAR!!!! Quem quiser ver as diferenças...
A. Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 21/04/2006

JOHN MAYALL

Hoje revisitei John Mayall pai do blues branco, e especialmente o seu John Lee Boogie dedicado ao monstro, Jonh Lee Hooker. Aprecio a sua paixão pelos blues, apesar de ser branco e britânico e de Manchester nestas ondas de blues, tudo é importante também, e existem os apesares e os no entantos ... a cor da pele é importante, sim!!!!!
Os blues são um género musical absolutamente negro capaz de despertar a paixão e a admiração dos não negros; as suas origens estão directamente ligadas à emancipação dos negros americanos e que se traduz num lamento sonoro, profundo que não nos deixa indiferentes.
A vasta cultura musical de John, a sua grande capacidade intelectual e a sua técnica instrumental possibilitou-lhe explorar criativamente o boogie-woogie, o jazz e o country.
Nota importante: este grande senhor foi um grande impulsionador na formação de vários grupos musicais e claro de ... Mick Taylor e Eric Clapton.
Mayall esteve em Portugal em Novembro de 2003.
Hoje revisitei John Mayall, recordei a gigantesca nuvem de fumo, iluminada pelas luzes dos estiradores, num ambiente propositadamente escurecido, ao fim da tarde, em S. Lázaro; um outro João que não o Mayall, no seu escape de reorganizar-se, traduzido em musicalmente azul, premiando-nos com estas sonoridades, intervaladas com sabor a rum, ampliando a nossa inspiração através de um verdadeiro feeling e enriquecendo-nos sempre.
Eu não gosto de fado mas amo blues!!!! Permite-me fechar os olhos e perder a noção do tempo...
Anabela Quelhas (Osíris)
Editado em www.sanzalengola.com em 10/05/2006

Sunday, September 17, 2006

FRACTAL

Osiris
Quero felicitar-te pela forma como colocaste a importância da estereoscopia e mais do que isso, o enfoque no que seja a realidade e a sua percepção.
Por acaso, a tecnologia da aerofotogrametria ( com que eu trabalho ), com a qual se fazem os mapas plani-altimétricos se baseia exatamente na estereoscopia, já que sem a perpectiva tridimensional seria impossível a representação gráfica do relvo. É por isso que as fotos aéreas sempre incluem uma sobreposição longitudinal e lateral, de forma a que o mesmo objeto fotografado no solo, esteja representado em duas fotos sequenciais, em perpectivas diferentes, para que surja a paralaxe.
Referindo-me à formação da imagem no nosso cérebro, para a percepção visual, tenho para mim que ela talvez seja diferenciada, em maior, ou menor grau, de pessoa para pessoa. Os bastões e bastonetes que se localizam por detrás da retina, são sensibilizados pelos raios luminosos e "constroem o quadro" que é enviado ao cérebro, como se fosse uma imagem scanerizada. Os cachorros e outros animais, por exemplo, não possuem bastonetes, responsáveis pela captação da radiação nas frequências que envolvem o espectro colorido. Têm somente os bastões, pelo que apenas vêm tudo em preto e branco.
Ou seja. a realidade "vista" pelos cachorros é bem diferente da nossa. É apenas em preto e branco. De igual forma a capacidade olfativa deles é milhares de vezes superior à nossa. Ou seja, as nossas realidade em termos de cheiro são bem diferentes.
Por acaso, eu não tenho visão na vista esquerda, pelo que não possuo estereoscopia. Assim, a minha visão tridimensional, necessária por exemplo para percepção de distância quando estou estacionando o carro, resulta apenas de elementos de memorização ( de quando eu via com as duas vistas ). No mais, é como se toda a minha realidade percebida pela visão, fosse como que um écran gigantesco ( bidimensional ).
Como muito bem sabes, são admiráveis os artistas que trouxeram para seus quadros a "visão tridimensional". Destaque para Salvador Dali e sua arte surrealista, mas ao mesmo tempo bem real.
Ainda sobre o número de dimensões na física e sua representação na arte quero destacar o FRACTAL. É a partir dele que surgem aquelas imagens em computador, tão usadas em descanso de tela ( espirais, p.e. ).
Elas são feitas usando-se funções matemáticas exponenciais complexas, em que a potência não é um número inteiro, mas sim uma fração ( por isso a denominação de fractal ).
Numa explicação simples ( se bem que incompleta ) Imaginem uma equação que não seja nem do segundo nem do terceiro grau, mas sim de 2,5. Algo que não é nem bidimensional nem tridimensional.
Já repararam numa simples couve-flor?
Cada um daqueles pequenos componentes brancas que compõem a coroa da couve-flor, tem exatamente a mesma morfologia que a couve flor completa. É um exemplo de fractal na natureza .
Fernando
Fernando:
De facto nem todos os animais têm visão binocular, devido à posição dos olhos em cada um dos lados da cabeça (os cavalos por exemplo); mas nos humanos, é uma caracteristica que atesta a nossa evolução em relação aos primatas, todos possuimos essa capacidade inata de fundir no cérebro as duas imagens.
A arte fractal, que muito bem descreves, integra-se também no grupo de inspiração virtual. Tem como base a geometria e o calculo matemático, e consolida-se actualmente com as possibilidades dadas pelos computadores e as novas teorias da biologia e física. Porém é um caminho distinto da arte dos estereogramas. Na arte fractal, penso eu, que a tendência é o rigor matemático se sobrepor à própria criatividade do artista, o q contraria a própria subjectividade, implícita na arte.Sempre atento e colaborante. )
Um abração,
Anabela QuelhasQuelhas

ESTEREOGRAMAS

"Um estereograma é uma técnica de ilusão de óptica, onde a partir de duas imagens bidimensionais complementares, é possível visualizar uma imagem tridimensional utilizando técnicas especiais para isso." Wikipédia
Aqui no nosso rectângulo vermelho e verde, há uns anitos atrás, um jornal semanal, dava como brinde aos seus leitores, pequenas imagens de estereogramas. Este gesto simpático, gerou muita desarmonia familiar, e levou muitos tugas, a estádios de completa frustração, por verificar que não possuíam a tal capacidade de ver a tridimensionalidade das referidas imagens.
As famílias desocupadas, ao fins-de-semana, dividiam os seus elementos, entre os que viam e os "outros".
Ficando o grupo dos que viam, com a sensação de serem iluminados, pertencendo assim, aos eleitos do virtual, e os outros com cara de palhaços, completamente desconcertados pelo esforço inglório de fixar os olhitos e nada lhes saltar do papel.
Eu, pertenci durante algum tempo a um subgrupo dos "outros", que pensava: "estão a mangar comigo!"..., "claro que a terceira dimensão é dada pela posição e cor dos objectos, colocados no suporte, tal e qual como se faz na pintura, explorando a noção de perspectiva".
Um dia, perdida por uma livraria, naquele exercício rotineiro, abre livro, arruma livro, verifico que tenho nas minha mãos um pequeno livro de estereogramas, com a chave de todo o paradoxo vivido pelos iluminados e pelos "outros".
Não o larguei mais!
Esse pequeno livro abriu uma nova janela no meu olhar!
Para já, o prefácio inicia-se com uma frase brilhante, que passo a transcrever:"O cérebro humano é a máquina de realidade virtual mais incrível jamais descoberta. As tentativas feitas ao longo da história para utilizar meios tecnológicos na criação de ilusões tridimensionais têm tentado reproduzir artificialmente, o que o sistema perceptivo humano faz naturalmente.
"Finalmente, alguém explica que, os iluminados, não são afinal iluminados, coisa nenhuma, e os outros, são de facto, muito mais que "tadinhos"!
Afinal todos os seres humanos com dois olhos a funcionar, conseguem ver em três dimensões, dado que cada um deles observa a realidade de forma independente, e as duas imagens se fundem posteriormente no cérebro - princípio da estereoscopia.
Para este fenómeno ter sucesso, ou seja, poder ser visualizada a terceira dimensão, sem a ajuda de qualquer dispositivo óptico, basta relaxar os músculos ópticos e deslocar o ponto de focagem do olhar. Às vezes é necessário alguma prática, o que este livrinho pode dar uma ajuda, já que ensina de forma muito concreta a posicionar o olhar sobre o suporte.
Sobre a história da estereoscopia, pode-se referir que esta, antecede a própria fotografia, referindo-se o ano de 1838, como o ano da invenção do par e do visor estereoscópico. Meus amigos isto já se iniciou há dois séculos atrás, sem ajuda dos PCs!
Os interessados poderão realizar uma busca na net, e encontrarão imensos exemplos que vos irão deliciar.
O livro referido é:"Estereograma" Howard Rheingold, Gradiva Publicações, Lda - 1994
Anexei o tema a este fio porque pretendo escrever de seguida sobre DALI.
Os estereogramas confirmam de forma inequívoca, que ao olharmos para o mundo à nossa volta, há muitas formas de o vermos e de nos relacionarmos com ele, depende apenas da forma como o aprendemos a ver. Nem tudo o que parece é, e nem tudo se esgota naquilo que parece ser.
As nossas verdades, afinal podem não o ser.
Anabela Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 20/04/2006

Ser ou não ser


Platão propõe-se resolver a tensão entre Heráclito e Parmênides: para o primeiro, o ser é a mudança, tudo está em constante movimento e é uma ilusão a estaticidade, ou a permanência de qualquer coisa; para o segundo, o movimento é que é uma ilusão, pois algo que é, não pode deixar de ser, e algo que não é, não pode ser, assim, não há mudança.
Para Platão com a sua Teoria das Idéias refere:
- O que há de permanente num objecto é a Idéia, mais precisamente, a participação desse objeto na sua Idéia correspondente. E a mudança ocorre porque esse objeto não é uma Idéia, mas uma incompleta representação da Idéia desse objecto.
Osiris
editado em www.sanzalangola.com em 17/04/2006

Friday, September 15, 2006

Brasília



Quando era jovem, quase a concluir a década de teen-ager, foi-me exigido leccionar uma aula de três horas, tendo como público, 50 indivíduos ávidos de saber, rigorosamente atentos, inflexíveis e determinados nas suas avaliações. O tema sorteado foi, as novas cidades de Brasília e Chandigarh (capital de Punjabe, Índia).
Nessa época, os meios áudio visuais, encontravam-se quase na pré-historia; teria disponível um projector de diapositivos, daqueles que avariam na hora mais imprópria, e que queimam a película fotográfica, quando não se lhe presta atenção e dedicação, durante alguns minutos.
Fiquei aterrada!
A minha reduzida simpatia pela cidade de Brasília (Chandigarh, ignorava-a até aquela hora!...), adornava ingenuamente o ramalhete da minha inexperiência juvenil.
A minha opinião sobre o Brasil, oscilava entre a paixão desmedida pelas duplas Jorge Amado e a sua Gabriela, Chico Buarque e Construção, e entre o desapontamento pelo bigodinho à Clark Gable, que os homens ainda insistiam em ostentar, já nos finais dos anos 60.
Perante uma situação difícil, a minha tendência inata, é sempre fugir para a frente, ou seja mergulhar de cabeça nos problemas.
Como digerir isto?
Como apresentar uma nova cidade, Brasília, pensada a partir do zero por Lúcio Costa e Óscar Neimayer, constantemente caricaturados, pela célebre frase, ridiculamente formalista: " Na arquitectura, o que interessa é ser bonito, se funcionar tanto melhor!!" (proferida com pronúncia brasileira)?
Como motivar a minha plateia para um tema que à partida, tinha no subconsciente de cada um, uma expectativa negativa?
Brasília é uma das consequências da política de Juscelino Kubitschek, construída entre 1956 e 1960..Localização - planalto central - Estado de Goiás
Objectivos:
- mudança da capital
- integrar o interior do país- gerar novos empregos
- ocupar mão de obra nordestina
- promover o desenvolvimento do interior do país
- desafogar o centro sul do território brasileiro.
Actualmente classificada como Património Cultural da Humanidade.
O projecto pertence ao arquitecto Lúcio Costa, foi imaginado segundo os princípios da arquitectura moderna (CIAMS) e a Carta de Atenas (1942) - zonas urbanas distribuídas segundo as suas funções, habitação, lazer, trabalho e circulação.
Segundo Lúcio Costa o projecto nasceu de um gesto simples, hoje denominado minimalista (está mais na moda), o sinal de uma cruz, que serve para assinalar um sítio, um lugar... adaptado à morfologia do local!....será trêta?...mas resultou, ajudou a mistificar o gesto criativo, tão simples e "ingénuo", e que transporta mecânicas de raciocínio tão complexas, lotadas de processos e de metodologias sucessivas de avaliação/decisão, como é projectar uma cidade!
Este pormenor..., reparei, encantou a minha assistência!
O traçado urbano e o simbolismo visual, adquire força na imaginação popular que o transforma num pássaro ou num avião. Estas formas concretas facilmente identificadas e retidas na memória colectiva, acabam por se converter na imagem do traçado urbano da capital brasileira. Na intersecção destes dois eixos, localiza-se exactamente o centro da cidade, que abriga os três poderes (Praça dos Três Poderes, legislativo, executivo e judiciário), a Catedral (capaz de abrigar 2.000 pessoas), museus e monumentos, tudo pensado numa escala monumental, transbordando simbologias nas formas arquitectónicas adoptadas -isto enche as medidas a qualquer aspirante a arquitecto!
O eixo correspondente às asas contêm as super-quadras, comércio e serviços, ladeados por um dos lados, por um gigantesco lago artificial de Paranoá, formando pequenas penínsulas onde se localizam, mansões e embaixadas.
" Super-quadra" ficou conhecida internacionalmente - edifícios de 6 pisos, assentes em pilares, com espaços de lazer directamente ligados à habitação, dando alguma autonomia e isolamento a estas "quadras".
"Brasília não tem esquinas", comentário ao facto desta cidade ser dominada pelos grandes espaços abertos, notando-se a ausência, da "rua corredor" tradicional. Os condicionalismos e as pré-referências, que sempre assistem a qualquer intervenção arquitectónica, são aqui inexistentes. A geometria é a chave orientadora de todo o processo criativo, as formas e as volumetrias surgem completamente livres de espartilhos abrindo, um vertiginoso caminho de total liberdade aos seus mentores, convertendo esta experiência numa utopia possível de realizar, só comparável à acção do Grande Arquitecto (Oi Carranca!).
.... slides projectados, uns atrás dos outros....beeeeeeeem, a plateia rendeu-se, já pouca atenção prestou ao final da aula (foi assim ou não, companheiro Rui?), e às interrogações que ficaram no ar (parte mais importante da aula)... completamente embuídos no prazer do exercício de projectar uma cidade nova, inundados pela utopia e preservados pela ingenuidade da idade.
Para os jovens europeus, qualquer cidade tem uma origem histórica - ou foram os suevos, ou os romanos, ou...- encontrar a possibilidade em que essa premissa não existe, torna tudo diferente, inverte toda a lógica projectual, que assiste o acto criativo, criando uma expectativa facilmente positiva, de liberdade. Esta nova cidade passou a encantar-me, pois é uma das mais ousadas realizações da arquitetura moderna mundial, e tem-me acompanhado como referencia arquitectónica, e exercício urbanístico na organização do território, dando-me oportunidade de a ver crescer, e evoluir, dando sempre uma atenção especial a todos os problemas que se interlaçam com ela.
A construção desta cidade em 4 anos, obrigou à deslocação de grandes massas de mão-de-obra de varias regiões do Brasil, que viam em Brasília a possibilidade de uma vida melhor e mais digna, sonho alimentado pelos políticos na época.
Esta expectativa positiva era desmedida e demasiado irreal. O símbolo do urbanismo moderno não conseguiu cumprir a esperança do povo. A cidade ideal, orientada pela Carta de Atenas e pelos conceitos do urbanismo racionalista apenas satisfaz a classe média e alta, que usufruem do esquema de vida adaptado a este espaço urbano, onde não faltam os jardins, os grandes espaços, a sectorização adequada, enfim tudo o que é necessário ao bem estar, porém à custa de uma forte segregação social - as cidades satélites que existem desde o inicio da construção da cidade.
O plano de Lúcio Costa não previu o tal fluxo migratório de trabalhadores essenciais para a construção da cidade, não foi prevista uma rede urbana de apoio, com infraestruturas que acolhessem esta população e permitisse a sua fixação e desenvolvimento; os trabalhadores foram-se acumulando no exterior da cidade formando um cordão de cidades satélites que ainda hoje existem. A capital do sonho e da esperança, rapidamente vislumbra a pequena distancia, a miséria, a falta de condições sanitárias e o pó vermelho das cidades, dos eternamente iludidos e enganados.
Brasília foi planeada para uma população de apenas 500.000 habitantes.
A população total de Brasília (incluindo as cidades satélites) já é de mais de 2 milhões de habitantes.
"A longa distância entre as satélites e o Plano Piloto isolou dois terços de sua população metropolitana que reside nos núcleos periféricos, além de gerar problemas de custo para o transporte coletivo", admite Lúcio Costa.
Entretanto, como toda cidade grande, existem também favelas, grandes concentrações de áreas com população de baixa renda, principalmente no entorno. O turista que se dirige à cidade de carro, percebe logo isso nas imediações da cidade. Isso, em razão de promessas políticas de governadores do Distrito Federal, que incentivaram o êxodo de outras regiões para a cidade o que acabou causando o aumento do desemprego e da violência.
Como será com a nova Capital de Angola, que alguns insistem em apontar como saída para o caos urbanístico de Luanda? Serão replays de quatro décadas atrás?
Anabela Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 9/04/2006

Se o mundo fosse óbvio


"Se o mundo fosse óbvio, a arte não existiria. A arte ajuda-nos a penetrar na opacidade do mundo" (Albert Camus)
Ser-se artista é ser-se permanentemente insatisfeito, irrequieto, curioso, preocupado com tudo o que o rodeia, inconformado com tudo que poderia ser perfeito e não o é. A insatisfação sentida é o motor para a mudança, para a rebeldia, para a transgressão, para a inovação, para a criação, abrindo novos horizontes à nossa existência, sempre em sentido contrário ao conformismo, à rotina, ao apaziguamento, à felicidade ilusória.
Anabela Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 31/03/2006

Keridos Kandengues - a melhor estória de Jota Pê:


Estávamos todos a passar o fim de semana, em casa dos Vôvôs, contagiados pela euforia do bem receber e do ser bem recebido - os problemas ficaram retidos no trânsito de sexta feira, e todos, velhos e novos, compartilhavam uma alegria contagiante.
Só havia um probleminha. Jota Pê, kandengue de 4 anos, tinha um mau acordar! Todos os dias, despertava de mal com a vida, com um génio "do cão", embirrando, durante uma meia hora, com tudo e com todos! A hora de vestir transformava-se num verdadeiro melodrama. Os problemas surgiam donde menos se esperava.... os sapatos, as meias, as camisolas, as calças, .... Como se costuma dizer "... se não era do c. era das calças"!
Estava na cozinha, a preparar o pequeno almoço de Jota Pê, e este entra pela mão da Vóvó, na sua resmunguice habitual, de cara feia, mal disposto ...
Vôvô Quelhas, já farto da cena matinal, presenciada ao longo de vários anos, inteira-se do problema e condescendente fala com toda a paciência com o neto. Este explica-lhe que está aborrecido com comprimento das mangas da sua camisa, não são do mesmo tamanho! Habilidosamente, estende os braços, para comprovar, estendendo mais um braço do que o outro (matreirice, que teimava usar habitualmente), e mostrando as suas mangas desiguais!
Para estupefação minha, vejo Vôvô Quelhas, a munir-se de uma tesoura, e concordando sempre com o neto, resolve acertar os comprimentos. Pacientemente corta um dos punhos da camisa, tornando-o visualmente alinhado com o outro, e reforçando sempre que Jota Pê, tinha toda a razão.
Se eu fiquei estupefacta, Jota Pê quase lhe saltavam os olhitos das órbitas. Em silêncio, viu a sua camisa de xadrezinho azul, a ser mutilda pela tesoura e pela paciência do compreensivo Võvô.
No final, todos concordamos que tinha ficado muito bem, uma autêntica obra de arte, Yves Saint Laurent não teria feito melhor!
Jota Pê, tomou o seu pequeno almoço em silêncio, e passou a acordar com muito melhor disposição!
Moral da estória: AH grande Vôvô! Às vezes é absolutamente necessário e urgente passar da teoria à prática!
Mãe Osíris (bjinhos para todos os kandengues do mundo )
editado em www.sanzalangola.com em 25/03/2006

Thursday, September 14, 2006

a cadeirita

A cadeirita de fitinhas das esplanadas de Luanda
Ao folhear uma revista sobre mobiliário (que não era da Ikea - tem um pouco mais de qualidade, o que não é difícil) deparo com o desenho de uma cadeira de exterior (patio chair), que é, nem mais nem menos, a cadeira das esplanadas de Luanda.
Estrutura metálica e metros e metros de fita plástica colorida, que preenche o espaço destinado ao utilizador, de forma mais ou meos ergonómica e arejada.
Lembrei-me das esplanadas repletas daquelas cadeiras feitas em série, fabricadas não sei onde, verdes, azuis, amarelas e cor de laranja, que serviram de cenário a subservientes engraxadores de sapatos, que esperavam pacientemente que os seus clientes resolvessem sentar para tomar umas loiras.
Cadeiras que permaneciam noite e dia no exterior, e assistiam resignadas à passagem atarefada, feita de idas matinais e regressos ao fim do dia, de pretos trabalhadores, ao longo das avenidas subitamente interrompidas nos musseques.
Surpresa minha, uma cadeira concebida por um designer dos anos 50! E eu que maltratava aquelas cadeiras, pois tinhamos um pacto de antipatia permanente... e elas teimavam em habitar em minha casa!
De vez em quando uma daquelas fitas rompia-se, cansada, esgotada, do peso que suportavam, ou dos sapatos dos putos indisciplinados e atrevidos, que as utilizavam como cama elástica.
Fita partida, cadeirita estragada!.... convertiam-se em cadeiras moribundas, com aspecto geriátrico, com menos duas ou três fiadas de fita, para possibilitar um inestético nó, adiando a sua ida para a sucata.
Que amores despertariam essas cadeiras aos seus fiéis e numerosos consumidores?
Por mais que olhe para a dita, não há meio de eu gostar!!!....
Anabela Quelhas

ao meu pai

Ao meu pai:

Perdia-se numa conversa comigo. Saíamos sem destino, deambulando por Sta Catarina, 31 de Janeiro, Mouzinho da Silveira, observando, sentindo odores, apreciando arcos e cornijas, observando as pessoas,

... sobe escada, desce escada...

...interseptando afirmações com interrogações, num dialogo sem fim...

... os dois com mania de andar depressa! Não passeávamos..., sempre marcha rápida, como se alguém nos esperasse nalgum sítio!... quando o assunto exigia mais concentração parávamos... e esticávamos conversa, às vezes arranjávamos um sitio para sentar,... um muro, um banco... até um degrau servia!... espreitávamos os azulejos em S. Bento, e comíamos castanhas na praça... mais um eléctrico a passar, mais uma chuvinha molha tolos...

- Oh Muoço!!! num bai um raminho de rosas? ... manjerico? Oh, só no Som Joõe, mor!!!

... passagem obrigatória pela Bertrand, o lanche no Majestic, saboreando o brilho dos espelhos daquela jóia facetada, entre uma meia torrada e um pingo!

- Sai um cimbalino!... os cartazes do teatro de S. João... distraído na conversa, às vezes acordava na feira da Vandoma.

-Trazes-me para as velharias?... Para velho basto eu!

- eu sorria, maliciosamente, por este destino, secretamente planeado e apreciando os cabelos brancos de meu pai, que lhe ficavam tão bem, no seu porte ainda jovem. Contornar a Sé, referências a Guerra Junqueiro e António Nobre, observar em picado a Igreja dos Grilos e o seu adro sempre com crianças a brincar...

-... por ali é que é a famosa Rua Escura? ... cenário de tanta história vadia?... muralha sueva, a porta do sol e a dos olivais, lá no extremo oposto na Cordoaria... passar pela igreja de Sta Clara e ir até ao fim da muralha fernandina, espreitar pelas ameias e olhar a serra do pilar e o rio, tantas vezes prateado apesar de Ouro no baptismo... descíamos à cota baixa pelas escadas das Fontaínhas, desembocando na Ribeira.

"A ponte é uma passagem, prá outra margem

Desafio pairando sobre o rio

A ponte é uma miragem.."

Liiiiindo!!!!!!!!!!! (Já Fumega)

Admirado por eu gostar de jantar pelas aquelas arcadas... ver as marcações das cheias pelas paredes, recordar a angústia daquelas gentes, à espera de ver as águas a subir, algumas vezes presenciada por mim.

Atravessar o rio pelo tabuleiro de baixo, pisar em Gaia, ver as caves e sentir o aroma e o sabor de um vintage, enquanto admiramos o perfil da cidade tripeira, e identificamos os monumentos.

...discordando sempre sobre as obras da intervenção SAAL, e paragem obrigatória no cubo de Zé Rodrigues: Lembrar o Duque da Ribeira, salvador de almas quase perdidas, e olhar de mais perto, toda aquela água, a deslizar suavemente até à Foz, o cais da Ribeira e o da Estiva. ...visitar o pequeno labirinto da Casa do Infante, recuar na história até à 2ª dinastia.

Regressar pela Rua das Flores sem vislumbrar qualquer tragédia, apenas a concentração de ourivesarias, espreitar o barroco, depois do largo dos Lóios, confirmar a intervenção de Almada.

As filas nas paragens de autocarro,...

-... está cansado para o regresso?

- Em vez de esperarmos na fila vamos andando.

- O 20 ou o 78 estão sempre a passar!...

- Olha ali mais acima o que andam a fazer? Vem-me mostrar! De quem é aquela estátua?... o grande espaço onde a cidade manifesta a sua vontade colectiva, D. Pedro IV ( afirmação de liderança e resistência contra quem atacava a partir do sul) dum lado, e Garrett do outro!... a meio a "Menina Nua" de Henrique Moreira. O Comércio do Porto... atalhar caminho pela rua Formosa, e passar ao Bolhão quase a fechar.

Mais um regresso a casa.

Poupou-me sofrimento, evitou que eu vivesse a violência e ensinou-me a ser teimosa, persistente, tolerante, a ter opinião própria e a discordar com ele.

Anabela Quelhas

Tuesday, September 12, 2006

O olhar fauve


"O Olhar Fauve"
Exposição de pintura proveniente do Museu de Bordéux, agora exibida no Museu do Chiado em Lisboa, até 19 de Março.
A preocupação principal dos fauves (as feras) era conceber uma arte de impulso vital, com enfoque nos problemas pictóricos, desvendando o dualismo entre cor e construção dos elementos, forma, plástica, volume e espaço.Em meio às grandes transformações sociais e políticas(inicio do século XX), os fauves não tinham nenhuma posição política definida.
O expoente máximo desta tendência é Henri Matisse.

Hoje


Hoje estamos lhe ocupando quase toda a praia......................... .

editado em www.sanzalangola.com em 8/03/2006

Dia Internacional da Mulher


Para todas as mulheres/mães das numerosas Praças de Maio desse mundo, para as reclusas, para as toxicodependentes, para as prostitutas, para as escravas do século XXI, para as humilhadas, para as violentadas nos seus direitos, para as sem abrigo, para todas aquelas que foram até ao fim da linha e conheceram o inferno, .., que um arco íris de esperança brilhe todos os dias.
Anabela Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 8/03/2006

Sunday, September 10, 2006

Com as mãos se faz a paz


"Com mãos se faz a paz
E se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema
-E são de terra.
Com mãos se faz a guerra
-E se faz a paz.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
Nas tuas mãos começa a liberdade."
Manuel Alegre, poeta português.

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Mulheres de Atenas ,
Chiquo Buarque e Augusto Boal
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos,orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam,
Se banham com leite,se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas, não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas, cadenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Guardam-se pros maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos,
Carícias plenas,
Obscenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços,
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não tem gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios,
Lindas sirenas
Morenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem,
Se conformam e se recolhem
As suas novenas,
Serenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas.
Beijo do tamanho do mundo a todas as mulheres e homens angolanos
Anabela Quelhas

IMAGINE

Imagine
John Lennon

Imagine there's no heaven,
It's easy if you try,
No hell below us,
Above us only sky,
Imagine all the people
living for today...
Imagine there's no countries,
It isnt hard to do,
Nothing to kill or die for,
No religion too,
Imagine all the people
living life in peace...
Imagine no possessions,
I wonder if you can,
No need for greed or hunger,
A brotherhood of men,
imagine all the people
Sharing all the world...
You may say I'm a dreamer,
but Im not the only one,
I hope some day you'll join us ,
And the world will live as one

Imagine que não exista nenhum paraíso,
É fácil se você tentar.
Nenhum inferno abaixo de nós,
Sobre nós apenas o firmamento.
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje...
Imagine que não exista nenhum país,
Não é difícil de fazer.
Nada porque matar ou porque morrer,
Nenhuma religião também.
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz...
Imagine nenhuma propriedade,
Eu me pergunto se você consegue.
Nenhuma necessidade de ganância ou fome,
Uma fraternidade de homens.
Imagine todas as pessoas
Compartilhando o mundo todo.
Você talvez diga que sou um sonhador,
Mas eu não sou o único.
Eu espero que algum dia você se junte a nós,
E o mundo viverá como um único.

I HOPE SOME DAY YOU' LL JOIN US
Osíris

Freud

Freud dizia que em todos nós existe um impulso para a destruição.
Da mesma maneira que existe um impulso para vida, para criatividade, para o prazer e para o amor.
Estes impulsos estão sempre em conflito, e esses conflitos vão sempre acompanhar o homem.
Se não reconhecermos isto, acreditaremos em qualquer teoria que defenda que a guerra é a única solução para o mundo.
Na verdade, todas essas teorias e crenças que defendem a guerra estão a serviço deste impulso destrutivo que existe em todos nós. Por isso fazem tanto sucesso, porque encontram eco em todos nós.
Temos que nos conhecer para a guerra poder acabar.
(isto aplica-se às guerras e às guerrinhas)
Osíris
"A pergunta é: existe uma maneira de libertar os homens da fatalidade da guerra? É sabido que, com o progredir da ciência moderna, responder a esta pergunta tornou-se uma questão de vida ou de morte para a civilização por nós conhecida; e no entanto, apesar de toda a boa vontade, nenhuma tentativa de solução deu qualquer resultado visível. (...) Concluindo: falei até agora só de guerras entre Estados, ou seja, de conflitos internacionais. Mas estou perfeitamente consciente do fato que o instinto agressivo também se manifesta de outras formas e em outras circunstâncias (penso nas guerras civis, por exemplo, em certa altura devidas ao fanatismo religioso, hoje a fatores sociais; ou ainda às perseguições de minorias raciais)."
(Albert Einstein, Carta a Freud, julho de 1932)
"O senhor admira-se do fato de que seja tão fácil entusiasmar os homens para a guerra e suspeita de que algo, uma pulsão de ódio e de destruição, atua neles, facilitando tal incitamento. Mais uma vez, não posso senão partilhar sem restrições sua opinião. (...) Ora, as atitudes que nos foram impostas pelo processo da cultura são negadas pela guerra do modo mais cruel e, por isso, erguemo-nos contra a guerra; não a suportamos mais, e não se trata aqui de uma aversão intelectual e afetiva; em nós, pacifistas, agita-se uma intolerância constitucional, por assim dizer, uma idiossincrasia elevada ao máximo. E parece que as degradações estéticas da guerra contribuem para nossa rebelião em não menor grau do que suas atrocidades. (...) Por agora só podemos dizer: tudo o que fomente a evolução cultural atua contra a guerra."
(Sigmund Freud, Carta a Einstein, setembro de 1932)
editado em www.sanzalangola.com em 7/03/2006

O Beijo

O Beijo, de Gustav Klimt
Oiço Abrunhosa, embalada na cadência das suas palavras, que emanam sedução, cumplicidades, sentires profundos, capazes de criar interligações com registos visuais... e deixo-me navegar em mares de cetim....
Viagens que se perdem no tempo,
viagens sem princípio nem fim,
beijos entregues ao vento,
e amor em mares de cetim.
Gestos que riscam o ar,
e olhares que trazem solidão,
pedras e praias e o céu a bailar,
e os corpos que fogem do chão.
...enquanto escrevo, sobre o "O Beijo" de Gustav Klimt (1862 - 1918 pintor simbolista austríaco), grande tela pintada em 1908, uma das obras mais sensuais da história da pintura. Representa o símbolo de união.
Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.
O erotismo do casal de apaixonados é transmitido através de linhas sensuais que emergem no eixo de simetria com a figura feminina.
A exploração dos desenhos decorativos das roupagens de ambos, jogando com os violentos acordes cromáticos, fazendo o contraste entre quadriláteros e circulos, num simbolismo desmedido dum jogo de sedução, inundado de dourado - antagonismo ou complementaridade?
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
Curiosamente, a única parte realista desta pintura, tão subtilmente erótica, é o espaço ocupado pelos rostos.
Tenho tantos segredos
Que te quero contar
E uma noite não chega,
Diz que podes ficar.
Klimt inspirou-se na sua relação com Emile, sua namorada ou amante, e alguns críticos salientam que esta é uma mulher submissa, devido à inclinação do seu rosto, e ao nível inferior em que é representada.
Diz-se que é o homem que domina e que toma a iniciativa do beijo, e que a mulher abandona-se, o rosto é passivo, e as suas mãos crispam-se.
Enfim nós os dois,
Os teus gestos nos meus,
.... quem vai adivinhar os mistérios do amor?
Quem me dera poder conhecer
Esse silêncio que trazes em ti,
Quem me dera poder encontrar
O silêncio que trazes por mim.
A mulher aparece envolvida na roupagem masculina, num abraço apaixonado, e numa posição efectivamente inferior, mas perfeitamente equilibrada com o seu rosto, extremamente feminino e belo, sendo o único visível na sua totalidade.
eu não sei, que mais te posso dar
um dia jóias noutro dia o luar
gritos de dor, gritos de prazer
que um homem também chora
quando assim tem de ser
No amor, é tão dificil distinguir submissão, de entrega, de sedução consentida, de erotismo, de sinalética de paixão...... O beijo, aquele momento que sucede aos olhares que se olham, dialogando no silêncio.
Tudo o que eu te dou
tu de das a mim
tudo o que eu sonhei
tu serás assim
tudo o que eu te dou
tu me das a mim
tudo o que eu te dou*
O Beijo de Klimt e Mona Lisa comparam-se em relação ao fascínio que exercem, e ao seu simbolismo que nunca foi completamente descodificado.
* poemas de Pedro Abrunhosa
Anabela Quelhas (22/02/06)
editado em www.sanzalangola.com 5/03/2006

A beleza da mulher

A beleza na mulher
Há poucos dias ao navegar no chat desta sanzala, a amena cavaqueira foi dar ao que os homens entendiam ser uma mulher bonita.
Constatei que todos os homens facilmente adiantaram as suas opiniões, apenas um manifestou algum constrangimento em explorar o assunto, receando ser mal interpretado, talvez porque, quem lançou a questão foi uma mulher.
Concluí que o conceito de beleza é muito abrangente, e felizmente para nós mulheres, o consenso não existe.
Foi abordado o lado "felliniano", a anorexia, as morenas, as loiras, as mais cheínhas, a mulher publicitada nos média, os sorrisos, os olhares, os cabelos, as orelhas (quem diria?), a mulher portuguesa, a mulher nórdica, as qualidades interiores, a sensualidade, a inteligência, o vulgar, o exótico, a cultura, as mães e o amor.
Para um amigo, que até ia concordando com tudo o que se abordava, insistia que se pudesse acrescentar a todas as qualidades o cabelo loiro, que seria o ideal.
Não resisto em transcrever três opiniões:
- Mulher bonita são todas aquelas que passam por aqui e têm a pachorra de nos aturar convivendo de forma interessante e brincando, dizendo verdades a sorrir...
- A mulher que se ama é sempre bonita!
- ... quem quer andar pendurado num ganda sorriso e umas pernas altamente e a dizer: não abras a boca.... (admirável! )
Osíris
Editado em www.sanzalangola.com 3/3/2006

Keridos kandengues, "é tão bom não ter juízo"

É tão bom não ter juízo!
Ser um rapaz com juízo?
Ah, isso não é preciso!
É tão bom ser diabrete,
pintar de verde o tapete.
É tão bom ser um mauzão,
deitar pimenta no pão.
É tão bom ser um pirata,
puxar o rabo da gata.
É tão bom ser um traquinas,
despentear as meninas.
É tão bom ser um travesso,
vestir tudo do avesso.
É tão bom ser um marau,
pôr no lixo o bacalhau.
É tão bom ser desastrado,
cair no lago calçado.
É tão bom ser malandrão,
roer os ossos do cão.
É tão bom ser um maroto,p
ôr no prato um gafanhoto.
Tão bom ser insuportável,
pisar um senhor notável.
Ser sempre inconveniente,
ao careca dar um pente.
É tão bom ser mau, mau, mau,
Soltar na aula um lacrau.
O pior é quando a mãe
resolve ser má também.
Luísa Ducla Soares

Picasso


"Toda a gente quer compreender a arte. Porque não tentam compreender as canções de um pássaro? Porque razão se ama a noite, as flores, tudo em nosso redor, sem que o queiramos compreender a toda a força? Mas quando se trata de um quadro, as pessoas pensam que têm de o compreender. (...) um artista cria, porque tem de criar, ele próprio é apenas um pedacinho insignificante do mundo (...)" Picasso

A arquitectura

A ARQUITECTURA
Muitos cidadãos se indignam pelo facto não entenderem os quês e os porquês que encerram certas obras de arte, nomeadamente a arquitectura. Fazem um esforço meritório de entendimento do belo ou do detestável, e a sua indignação chega por vezes ao ponto de tangência da revolta, por entenderem que lhes está a ser retirado um direito fundamental de cidadania.
Como é evidente, todos tem a liberdade de apreciar, opinar, amar, odiar, tudo e todos, onde a arquitectura implicitamente se inclui, dentro daquele principio democrático, de respeitar a liberdade dos outros.
E todo o mundo gosta de opinar sobre arquitectura!
Isso é bom!
Basta aparecer um edificio que não segue a linha do tradicional, e todo o cidadão "cai em cima" a zurzir a sua opinião, normalmente pouco fundamentada.
Nunca vi ninguém a reclamar sobre os cálculos matemáticos da estrutura de uma ponte ou de um edifício, congeminando se o coseno de Fi foi introduzido correctamente no cálculo de betão armado, ou se o método utilizado no cálculo, foi o método dos elementos finitos, ou outro mais simples.....
Nunca vi o condutor de um vulgar automovel, fazer apreciações sobre a força centrípeda ou centrífuga e a sua relação com especificidades da mecânica do veículo.
Quando adquirimos um fármaco, não questionamos o farmacêutico sobre as técnicas laboratoriais que assistiram a manipulação dos químicos.
Utilizamos electrodomésticos diáriamente e não nos afecta o facto de entendermos ou não as lei de Ohm ou de Faraday.
Porque será?
Porque será que queremos entender a arquitectura?
Seria bem mais simples questionarmos os problemas relacionados com as ciências exactas, pois as conclusões seriam mais precisas, mais lógicas, mais consentânias; e assim os cidadãos ficariam realizados e inteirados da problemática em questão, em vez de viverem essa angústia permanente das interrogações nunca respondidas.
Mas não, toda a gente quer saber, porque o edificio tal ganhou o premio x, porque um alçado "cego" é belo, qual o estilo da obra y, porque integrar não é copiar, porque um edificio apareceu implantado sem seguir os alinhamentos do vizinho, porque um edifico deve ter 5 pisos e não 7... e acima de tudo, rotular!... é feio ... é bonito! Isto demonstra bem, como a arquitectura está ligada a todos nós e como nós a consideramos importante na nossa vida. .
"...Da boa ou má qualidade da organização do espaço depende em boa parte, o bem ou o mau estar do homens; a desarmonia da organização do espaço gera a infelicidade humana..." (Arq. Fernando Távora, in A lição das constantes )
A arquitectura não é uma ciência, é um arte, e como tal, conta com aquele parâmetro de subjectividade que baralha, inverte, decompõe, deforma, reequaciona, interroga, desmembra e reconstrói todo o raciocínio matemático e tenta envolver no seu percurso, diversas áreas do saber, realizando um trabalho de síntese a partir de uma infindável série de elementos.Como é uma arte, não se esgota numa única solução, e por isso se torna difícil entedê-la linearmente.
E então como é que isto se processa?
Existe uma metodoliga de trabalho que é o grande suporte de todos os arquitectos (uns mais, outros menos hábeis em utilizá-la com sucesso), denominada metodologia projectual.
Envolve diversas fases: situação, enunciado, investigação, projecto, realização e avaliação.Todos os elementos que estão presentes na concepção de um espaço arquitectónico, dos mais simples ao mais complexos, submetem-se a esta espiral metodológica, feita de sucessivos processos de análise e sintese, que determinam decisões de recusa ou aceitação, numa dinâmica criativa e de difícil digestão para o arquitecto.
Este, o arquitecto, por sua vez, vive momentos de entusiasmo e frustração consoante a evolução do processo.
Quando se chega à fase de avaliação, se alguém pensa que certamente todo este processo acabou, desengane-se. A avaliação é realizada, como todos sabemos, soluções perfeitas não existem, e remete-nos para uma nova situação, dando início a um novo ciclo, e assim sucessivamente. No entanto é um processo que não se fecha estáticamente num circulo, evolui de forma dinâmica. Pontualmente dá-se uma finalização formal ao tal espaço arquitectónico, mas o processo continua, e reflecte-se obrigatóriamente na resolução dos problemas seguintes ou nos espaços que o arquitecto projectar a seguir.
Este método semelhante ao chamado método cientifico, é utilizado nas escolas portuguesas do ensino básico desde há 5 anos, por ser evidentemente um método de resolução de problemas, e absolutamente saudavel e aconselhavel a sua utilização por parte de todos os cidadãos. Este método, evita o resvalar para o caos, para a alienação, para o inexplicável, o insustentável e o gratuito, define um rumo orientado pela lógica, supervisionado pela criatividade, clarificando interrogações, fomentando a pesquisa, interligando-a com o mundo real e incentivando a procura do belo e do perfeito.
Mas perfeito só Deus, e nem sempre!
Anabela Quelhas
Editado em www.sanzalangola.com em 27/02/2006

Da arte de manejar um cadáver

DA ARTE DE MANEJAR UM CADÁVER
"Su cadáver estava lleno de mundo"
Inicialmente por helicóptero,
foi o corpo transportado
e colocado, semi-nu, para que todos o vissem,
num quarto de lavar a roupa.
Fotografaram os restos mortais,
depois enterraram-nos algures
para que ninguém os visse,
para que não se pudessem mover.
Por ninguém os ver
cresceu o terror
como o cabelo e as unhas dos mortos.
Desenterraram-no, cortaram-lhe o polegar
como prova de que era mortal.
Queimaram-no depois até às cinzas
que enterraram em lugar incerto:
pretendiam impedir que se erguessem
e formassem um exército invisivel.
Por muito tempo ainda, o terror
enterrará e desenterrará
o corpo que mantem uma guerra invisivel
em Santa Cruz. . . e noutras paragens.
Lasse Soderberg
(Amigos cá ando eu a limpar o pó aos livros lidos há mais de 30 anos, long time ago!O poema não tem grande qualidade, mas quem evocará? )
Anabela Quelhas

Duas Paisagens

Duas Paisagens
Marco Polo Guimarães
Esta cidade que se alargaem leque azul de seda e laca,
em girassóis de ouro e brasa,
em ventanias desatadas;
esta cidade que se alargaem mangue cinza e praia acesa,
em manga aberta sobre a mesa,
em moça aberta sobre a cama;
esta cidade que se expandeem praça,
várzea e avenida,
em superfícies, cromo e vidro,
em rios de sombra em margens nítidas;
esta cidade que se dilata
em cores rubras quaisquer que sejam,
em flexíveis linhas de frutas,
em rijas tramas de sal e fibra;
esta cidade que se amplia
em rol de roupa branca corando,
em vila branca no horizonte,
em asa branca cortando a tarde;
esta cidade que se alagade sol, se espicha, se espreguiça,
se vira ativa, brinca e grita,
quando chove muda,
fica muda;
esta cidade se limita;
a chuva a prende em barras finas
e instransponíveis, em barras michas
e frias;
prisão que a descolore toda; esta cidade na chuva
torna-se contrátil, ostra viva
fechada; pequena, cubículo,
o homem a habita aos pedaços
e por etapas, tateando cego,
temendo abismos, correndo riscos
na rua riscada de finitos;
esta cidade que empaca, fica
implástica, imóvel, impossível;
submersa, mantém o homem
entre paredes, galochas e capas
contido; se cessa, se cerra,
se cerca, se caça, se embaça
numa dura cerração líquida
que e liquida, ínfima; caracol
sem saída; paralelepípedo
derretido; vento oleoso;
serpenteante serpente de pano
enlameado; em farrapos,
a cidade nem mais é; é só
uma caricatura anônima grafada a
carvão no muro de um terreno
baldio, onde ratazanas escondem
restos de sombras manchadas de giz.
Poema inédito em livros. No CD Plataforma para a Poesia

A violência contra as mulheres continua a ser extremamente comum no mundo. Trata-se da manifestação mais atroz de discriminação sistemática e de desigualdade que as mulheres enfrentam, na lei e na sua vida quotidiana, em todo o mundo. Esta violência ocorre em todas as regiões, todos os países e todas as culturas, independentemente do nível de vida, da classe social, da raça ou da etnia.
A violência dos homens contra as mulheres ocorre muitas vezes em casa, sendo tipicamente perpetrada por um familiar próximo ou pelo companheiro e, depois, silenciada. A violência dos homens contra as mulheres é um fenómeno associado à desigualdade na distribuição do poder entre os géneros, que ainda caracteriza a nossa sociedade. "A falta de igualdade é também uma das razões por que este tipo de crime não tem sido suficientemente denunciado e condenado". Para além das medidas de apoio às vítimas de violência, há também necessidade de "desenvolver estratégias proactivas e preventivas destinadas aos perpetradores da violência e a potenciais perpetradores", incluindo sanções penais.
A violência contra as mulheres, enquanto mães, afecta directa ou indirectamente os seus filhos e tem efeitos negativos duradouros na saúde emocional e mental das crianças, podendo criar um ciclo de violência e maus-tratos ao longo de gerações.
Mas há mais!
Osíris
editado em www.sanzalangola.com em 23/02/2006

Praticamente todas as culturas do mundo contêm formas de violência sobre as mulheres que são quase invisíveis, porque são vistas como 'normais' ou 'habituais'.
No Mundo Mais de 135 milhões de raparigas e mulheres têm sido sujeitas à mutilação genital e cerca de 2 milhões estão em risco todos os anos (6.000 todos os dias) (ONU, 2002).
82 milhões de raparigas, com idades compreendidas entre os 10 e os 17 anos, casarão antes do seu 18º aniversário (UNFP)
Em mais de 28 países de África, a mutilação genital feminina é praticada (Amnistia Internacional, 1997)
No Níger, 76% das mulheres mais pobres casarão antes dos 18 anos (UNFPA 2003)
No Egipto, 97% das mulheres casadas, com idades compreendidas entre os 15 e os 49 anos, foram submetidas a mutilação genital feminina. (Estudo da OMS, 1996)
No Irão, 45 mulheres, com idades inferiores a 20 anos, foram assassinadas por familiares na província árabe de Khuzestan, no contexto dos chamados 'crimes de honra', durante um período de dois meses em 2003. ( Middle East Times, 31 Outubro 2003)
A mutilação genital feminina tem sido denunciada, em países asiáticos como a Índia, Indonésia, Malásia e Sri Lanka, bem como nas comunidades imigrantes da Austrália (ONU 2002)
Na Índia estimam-se em 15.000, as mortes acidentais por ano. Na sua maioria são causadas por fogos em cozinhas desencadeados de forma a parecerem acidentais (Injustice Studies, Vol 1, Novembro 1997)
A mutilação genital feminina é praticada em comunidades imigrantes na Dinamarca, França, Itália, Holanda, Suécia, Suíça e Reino Unido (ONU, 2002) Amnistia Internacional
Afinal quem consegue ignorar isto? Mas há mais!
Osíris
Editado em www. sanzalangola.com em 22/02/2006

Friday, September 08, 2006

O meu encontro com Mona Lisa

O meu encontro com Mona Lisa Mona
Lisa é famosa em todo o mundo, pela sua expressão introspectiva, pelo seu enigmático sorriso e por ter sido pintada pelo mais estimado mestre renascentista, Leonardo da Vinci.
Terá sido a esposa de Francesco del Giacomo ou terá sido Isabel de Aragão?
A identidade do modelo permanece desconhecida, e ainda se questiona se o modelo terá sido masculino ou feminino (e esta?).
Lillian Schwartz, cientista dos Laboratórios Bell, sugere que a Mona Lisa é na verdade um auto-retrato de Leonardo, e eu acrescentaria, travestido. Comparando um auto retrato de Leonardo com a mulher do quadro, verifica-se que as características dos rostos se conjugam na perfeição.
Um computador da Universidade de Amsterdam, programado, com a colaboração de uma Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, para - reconhecimento de emoções - analisou o famoso quadro de Leonardo para tentar revelar o famoso sorriso da mulher retratada, que constitui um dos maiores mistérios da arte mundial. Desenvolveram um algoritmo que tenta determinar os sentimentos expressos por uma pessoa através da análise de traços faciais, como a curvatura dos lábios ou as rugas dos olhos.
A conclusão foi a seguinte:
La Gioconda era 83% feliz, 9% enjoada, 6% atemorizada e 2% incomodada. (ultimo nº e da revista "New Scientist").
Há especulações sobre uma possivel gravidez de Mona Lisa, baseadas na postura das suas mãos inchadas sobre o ventre, fazendo-se a analogia com o gestual de protecção ao ventre das gestantes.
Mais importante do que a figura em si, é definitivamente, a técnica de pintura a óleo, criada por Leonardo, que lhe permitiu criar sombreados subtis, através do célebre sfumato , e uma perspectiva atmosférica impossiveis de produzir com a têmpera de ovo, então usada.
Leonardo demorou vários anos a pintar sua Lisa, e levou-a de Itália para França.
Mona Lisa foi o fetiche de Napoleão e este não a dispensava dos seus aposentos intimos; foi roubada uma vez por um italiano, inconformado por esta obra não estar no seu pais, foi agredida, e já viajou pelos Estados Unidos, Japão e União Soviética - currículo interessante!Mantém-se no Museu do Louvre em Paris.
Um amigo meu, duplo especialista em olhares de Mona Lisa (olá Xico) defende a teoria, que o olhar da referida, nos acompanha, consoante nos deslocamos à sua frente, o que confirma a magia e simbolismo de questa donna.
Confesso que não a aprecio, e tenho até, um certo ódiozinho de estimação por ela, dado que o seu nome insiste em me acompanhar pela vida fora! - vá-se lá saber porquê!
Fui ao Louvre visitá-la! Coitada! Vi uma Mona Lisa de pequenas dimensões (77X53), em que a sua pequenês se assentua ainda mais, junto de "As bodas de Canaa" ou de "Coroação de Napoleão", obras verdadeiramente gigantescas. Tem um sorriso completamente depré , dado que se encontra completamente encaixotada em vidros anti bala e anti motim, e iluminada por luz fria para evitar as rugas no seu rosto seiscentista.
Passeei-me à frente dela, para confirmar a tal teoria do movimento dos olhos. Aproximei-me, afastei-me, sustive a respiração, respirei fundo, simulei um virar de costas, vigiei-a discretamente enquanto outros visitantes ensaiavam também os seus rituais, provoquei-a, pisquei-lhe o olho.... nada! Acabei por retribuir-lhe o sorriso! ... muda e queda pour toujours !!!
Aquela ausência das sobrancelhas e pestanas, torna-a ainda mais estranha e patética.
500 anos a sorrir, sem perder a compostura, como é possivel?
O que fará durante a noite?
Será que adormece com aquele mesmo sorriso, ou boceja de enfado e cansaço?
Lembrei-me tambem da interpretação de Sigmund Freud, que considerou que aqulele sorriso revela uma atracção erótica entre Leonardo e a sua mãe, como não podia deixar de ser!
Se fosse pintada hoje, Leonardo retrataria certamente a mulher conformada, que deu prioridade à familia em vez de se realizar profissionalmente e que ainda por cima assume que adora pilotar um fogão. Aquela que sufocou os seus sonhos para não atrapalhar ou ofuscar o papel do marido, tendo-se colocado sempre no final da sua própria lista de prioridades.
Os admiradores são imensos, de todas as nacionalidades e raças, fazem até, fila, e olham-na embevecidos, agradecidos e realizados por aquele momento, estar de facto a acontecer nas suas vidas.
Porque a amam tanto?
Obrigatóriamente dividi a minha atenção entre a obra de arte e os observadores, e cheguei a um ponto, em que os últimos levavam vantagem. Registei os seus olhares, as reacções e comentários que faziam para os acompanhantes - sorriso lascivo, inocente, triste, alegre, convidativo, enigmático... e reparei que aquela sala nunca se esvaziou - eu diria que é uma sala de culto.
A grande maioria olhava-a com grande ternura, é um facto!
A Mona Lisa fundou o modelo adequado ao retrato. Da cinta para cima, mãos cruzadas sobre o regaço, postura a 30 graus, cenário ao fundo com maior ou menor qualidade, rosto e colo com boa luminusidade... e o tal sorriso, que ninguém sabe classificar.
Sorri de quem, do quê ou para onde?
O modelo de retrato mencionado será utilizado, posteriormente, por muitos outros pintores, fotógrafos e até na televisão.
Quando se vai ao fotógrafo tirar as fotos tipo "passe", o que acontece, meus amigos?
Lá vem a posição Mona Lisa! Nunca pensaram nisso? Nunca se acharam completamente ridículos, e furiosos quando posteriormente, verificam que o sorriso ficou a condizer?
Alguns menos simpáticos já a ridicularizaram, como Marcel Duchamp (Movimento Dada) que lhe pintou pêra e bigode, entrando definitivamente no mundo da clonagem. Dali pintou um auto retrato com a "colagem" da dita e foi pela mão de Andy Warhol que entrou na Pop Art. E quem é que já não cedeu à tentação de se auto retratar pelas agora, tão acessiveis, possibilidades de clonagem informática, ou então reforçar o seu sorriso, com um rosto de gata, ou colocando-lhe rolos na cabeça?
Há ainda a Mona Lisa interactiva, basta uma busca na net, que facilmente cada um adapta a sua expressão a seu gosto.
Como estaria ela da cinta para baixo?Já muito humor se fez a partir desta interrogação e já muito cartoon se criou!
Afinal será esta a mulher ideal?
Depois de me encontar com Mona Lisa, um verdadeiro ícone da pintura, e como deve acontecer quando se encontra alguém, pela primeira vez, realmente importante e com significado, realiza-se uma avaliação mais fundamentada e reformula-se a opinião.
Eu que sempre a considerei 100% tótó, mesmo sem qualquer base científica, revi a minha avaliação:
80% tótó 10% desesperada 5% de esgar claustrofóbico 3% conformada 2% decepcionada.
(que me desculpem os milhares de admiradores)
Anabela Quelhas (Osíris)
"Fio":
Os livros

keridos kandengues - a politica do utilizador consciente

A infância de HB decorreu na maior democracia doméstica, sem eleições para progenitores, evidentemente, transbordando frequentemente para a anarquia (avaliação posterior), mas embuída sempre na tentativa de aplicar práticas educativas modernas, filosofias progressistas e pedagogias de vanguarda.
Nunca houve armários fechados, espaços proíbidos, livros resguardados, aparelhos içados para cotas superiores, nem relíquias trancadas a sete chaves!Apenas existiram protectores de esquinas agressivas, por forma a evitar, visitas apressadas à urgência do hospital e acumulação de trabalho para o marceneiro e estucador/reparador de ângulos agudos e rectos.
HB desde que se interessásse por algo, podia utilizá-lo! Eu, mãe - pretensamente moderna - absolutamente convicta de certas verdades, dava prioridade à explicação sobre o funcionamento dos objectos, possibilitando à criancinha, a aprendizagem e a interiorização dos beneficios e riscos para a sua própria segurança.
A política da utilização consciente estendia-se ao computador, televisão, vídeo, máquina de lavar roupa, micro-ondas, máquina fotográfia, etc,etc..HB vivia feliz, rodeado de papeis, riscadores, brinquedos e tecnologia quase de ponta, acarinhado pela atenção permanente e vigilante dos papás.
Um lindo dia, HB queixa-se que o vídeo não funciona!
Aquela máquina genial que debitava o Rei Leão, as aventuras de Robinson Sucrué (é assim mesmo que se escreve), Pantera Cor de Rosa e Hitcliff, em certos dias, em sessão quase contínua, recusava-se a obedecer ao pequeno HB, que inconformado, chorava baba e ranho!
O que uma mãe não faz para evitar vasamentos de H2O misturada com cloreto de sódio?!!! Tudo!
Descobre-se que o aparelho enfermo ainda está dentro da garantia, e imediatamente se recorre à firma que assegurou, que o mesmo, era mais resistente que as pilhas Duracell! HB no meio disto tudo, manifesta interesse em resolver a situação, e parece colaborante, até...
Na secção das reclamações, o pai de HB, explica o sucedido, tece as mais sofisticadas considerações teóricas sobre a engenharia electrotécnica, enquadradas no play, rew, ff, pause, stop e eject e divaga sobre a resistência dos materiais ... manipulando, em conjunto com o funcionário de balcão, a digitalidade e a mecânica íntima do aparelho, fazendo inveja a muito obstectra e gastroenterologista.
Eu, por temperamento, mais cautelosa, observo a cena à distância!
De repente, a máquina manifesta contracções uterinas, uma naúsea despropositada, emite sons alienígenas, entra em convulsão profunda, adivinhando-se uma digestão complicadíssima, e eis que apresenta um bruto vómito... recheado por diversos pauzinhos de gelado!
Moral da estória: Nem tudo o que parece é!!!!
Não há fumo sem fogo!
Confie, sempre desconfiando!
(... podem acrescentar à vontade, pois a listagem é grande!)
Mãe Osíris (jinhos para todas as crianças do mundo)

Wednesday, September 06, 2006

Mestre Cargaleiro

Porque gosto de Mestre Cargaleiro*:
Cargaleiro traduz a pintura num exercício abstracto, reproduzindo referências geométricas a luminusidades familiares dos portugueses. Os recticulados coloridos fazem-me evocar os painéis de azulejo que tantas vezes ignoramos nas nossas cidades, mas que lá estão a testemunhar a nossa ligação ao mundo árabe, e que retemos no subconsciente através da subtileza do reflexo da luz.
Gosto da teimosa permanência do azul que atravessa toda a sua obra, nunca se tornando monótono, mas sim dando reforço e unidade aos ritmos, aos movimentos e segundo os quais organiza os espaços na composição.
Gosto do azul capaz de aceitar constrastes apaixonados com o vermelho. O vermelho vibrante, que ensaia a sedução com todas as outras tonalidades, despertando o sonho e a fantasia. Sedução através de linhas geométricas?
E porque não?
Um dia agarrei nos meus pincéis e tentei copiar assumidamente uma obra de Cargaleiro, para melhor a interiorizar.
Adorei procurar e descobrir as diversas tonalidades de azul, constatei o seu grande rigor e lúcidez no raciocínio geométrico, a exploração apaixonada de quadriláteros no emaranhado de sentimentos que os assiste, e de onde resulta a sedução, a beleza e a harmonia.
Trilhei o caminho de sucessão de linhas e formas, por vezes recorrendo a medições e cálculos matemáticos, para confirmar a orientação a seguir.Umas vezes tinha a necessidade de parar e observar o que pintava a uma certa distância, deixando-me invadir pela essência do azul evanescente. Outras vezes apetecia-me perder-me nas ruas de uma cidade para apreciar por analogia efeitos cromáticos e o sabor da liberdade.
Até que cheguei ao vermelho!
Sim vermelho !... nunca encarnado!
Osíris (Anabela Quelhas)
* Manuel Cargaleiro - pintor português contemporâneo, há muito radicado em Paris
Editado em www.sanzalangola.com em 19/02/2006

Celeiros

Celeiros
O hábito de acumular produtos resultantes de períodos de abundância, por forma a cobrir as necessidades alimentares nas épocas de maior escassez, é uma herança que remonta ao período do Paleolítico Superior. Esta forma de resolver o problema de armazenamento alimentar, foi um passo em frente na história do homem, pois possibilitou o aumento de população, o sedentarismo, e abriu portas para o desenvolvimento de actividades menos utilitárias, mas de grande importância para valorização do ser humano, como as artes.
As soluções encontradas relacionam-se com o tipo de alimentos a conservar, com o clima e com outras condições naturais, que cada região possui.
Encontramos também em Africa, esta preocupação, solucionada através da criação de celeiros exteriores à habitação, construídos com estacas, isolando os produtos da humidade, dos roedores, formigas e térmites.
Nas zonas em que o nivel da economia agrícola é muito elementar, os celeiros deixam de ser edificios e passam a ser simples recipientes de dimensões reduzidas.
Celeiro Quioco (região da lóvua, Lunda - Angola) - estacaria, planta com forma de quadrado, cobertura cónica, tudo executado em materias provenientes do mundo vegetal.
Celeiro Muíla (Chibia, Huíla - Angola) - recipiente do tipo seira cónica, tecido em fibras vegetais, com tampa, apoiado em estrado de paus, sendo este elevado do solo através de uma estrutura em estacaria com forma circular. (cont.)
CELEIRO MUÍLA (clicar)Anabela Quelhas
Editado em www.sanzalangola.com em 18/02/2006

Disparate Burocrático

Mais uma para acrescentar à listagem do disparate burocrático.
Certo dia dirijo-me à Conservatória do Registo Civil para renovar o meu bilhete de identidade, pois já tinha levado uma advertência de um policia numa operação stop.
Fiz-me acompanhar de fotografias, confesso tiradas um pouco à pressa, num estabelecimento fotográfico da especialidade.
Quando entreguei as fotos, estas foram recusadas.
Tentei perceber o porquê, averiguando se entendiam que a foto não me identificaria devidamente... (ingénua, eu... penteado diferente, maquillagem?)
...foi-me dada a justificação que o fundo da fotografia era azul claro e tinha nuvens como cenário.
Fiquei surpreendidíssima! Procurei os meus óculos de ver ao perto, e continuei vendo apenas um fundo não homogéneo, numa tonalidade esfumada de facto em tons azul claro.
Perante o meu espanto e teimosia que me caracteriza, confrontada com a persistência da funcionária, foi chamada a Conservadora do local que confirmou e me mostrou a lei - fotos com fundo de cor neutra. Tomá lá que é pra aprenderes!
Daí para o futuro, passei a estar atenta aos cenários dos estúdios dos estabelecimentos fotograficos e a exigir fundo beige. Quando me perguntam porquê, apenas digo que combina melhor com o meu tom de pele.
Osíris
Editada em www.sanzalangola.com em 18/02/2006

As casas que os arquitectos projectam

As casas que os arquitectos projectam
A casa bomba, é assim que todos a conhecem, fica na Póvoa de Varzim, a poucos kms da cidade do Porto. Deverá ser a obra mais conhecida de todos os arquitectos portugueses, e seguramente a casa portuguesa mais conhecida fora de Portugal.
Construída em 1976, é a 1ª obra emblemática de Siza Vieira - saíu em quanta revista de arquitectura existe por esse mundão fora!
Foi durante muitos anos o oráculo dos estudantes de arquitectura da escola do Porto e não só, que organizavam autênticas romarias para visitar a Bomba Amarela!
Só eu, em dois anos, visitei-a 6 vezes (com acesso ao interior), evidentemente sempre acompanhada por mais 50 colegas, no mínimo, que espreitavámos em todos os cantos e esquinas.
Mirones (voyeurs) a espreitar por cima do muro, devassando a privacidade de quem a habitava, era uma constante.
Foi fotografada e desenhada por milhares de mãos, foi acariciada com o olhar, foi olhada com as mãos, foi sentida, foi cheirada, figurou em sonhos e pesadelos arquitectonicos, foi construída e desconstruída num esforço de interiorização colectivo, foi companheira de estirador, foi cúmplice de decisões, foi modelo no imaginário de todos, foi recriada, foi amada por muitos e odiada por poucos.
- Estão a dormir?
- A gente não incomoda!
- Estão a cozinhar?
- Não há problema, demoramos pouco!
- Estão a almoçar?
- Tudo bem, começamos a visita pelo andar de cima, bom apetite!
- Está alguém doente?
- Não atrapalhamos, as melhoras!
Os habitantes desta casa foram uns autênticos mártires!
Circula o boato que ao fim de uma década de romarias sucessivas, o proprietário e respectiva familia, esgotaram-se pela exaustão, puseram a tal bomba à venda, e tiveram alguma dificuldade em vendê-la.
Fizeram nova casa através de encomenda a um projectista não qualificando, com indicações especiais do tipo "quanto pior, melhor" por forma a garantir sossego e privacidade até ao fim dos seus dias.
Curiosamente não existe uma única foto na net. Não me atrevo a anexar fotografia, para não incomodar os presentes moradores, e aqui, peço humildemente desculpa.
Anabela Quelhas
editado em http://www.sanzalangola.comem 16/02/2006
Como hoje, já recebi na pm-box, várias mensagens de interessados em conhecer esta obra de Siza, e como entretanto consegui descobrir algo da net, vou redireccionar. Bomb House 17/02/2006

Igreja de Marco de Canavezes

ARISTIDES:
IGREJA DE MARCO DE CANAVEZES
A obra de Siza Vieira é realmente polémica, basta consultar os blogs tão participados que existem na net - e ainda bem (nada pior que a indiferença).
No entanto a obra deste arquitecto português tem sido alvo de diversos prémios internacionais, concedidos entre os grandes mestres da arquitectura mundial.
Em arte e mais concretamente, em arquitectura, 2+2 pode ser igual a 5, 6, 78..... e até igual a 4 - é um exercício cognitivo realizado sempre num suporte muito subjectivo, nunca linerar, dinâmico e dialético, oscilando constantemente num processo de opções e decisões estetico formais e funcionais, complicado de gerir, e se possível deverá tender a expressar a cultura do nosso tempo.
Há opções tomadas que nem sempre poderão ser teorizadas pela visualização imediata.
Nada é deixado ao acaso, acredite. Para entender completamente e amar a arquitectura de Siza, é necessário mergulhar nela e sentir no dia a dia os problemas da arquitectura e o processo criativo que envolve o metodologia projectual.
Eu, como ex aluna de Siza, ao longo de 5 anos, arriscaria até a afirmar, que é um processo de aprendizagem e crescimento inteiror.
Ainda sobre a referida igreja, está longe de parecer um quartel de bombeiros, como alguns teimam em chamar-lhe.
É curioso lembrar, que é um projecto feito por um ateu e simpatizante comunista - se é que isto ajuda a esclarecer alguma coisa.
Consultem:
Anabela Quelhas
Editado em www.sanzalangola.com em 14/02/2006

Keridos Kandengues - brincando de barbie

Estava brincando de barbies, cindies, cinderelas e afins com kandengue, sobrinha neta de dois anitos, CX, no veste e despe de toiletes - uma azáfama que tem a capacidade de me esgotar, mais que uma hora no ginásio, mas que me trás muito mais felicidade.
Chega um dos tios "calcinhas" e cumprimenta-a dizendo:
_ Olá Princesa, como estás?
CX sem tirar os olhos do seu mexe e remexe infantil, responde prontamente:
- Olá Princês!
Moral da estória - fui ao éden e vim, ganhei o meu dia!
Mãe Osiris (Bjinhos para todas as crianças do mundo)
Editado em www.sanzalangola.com em 4/02/2006

Tuesday, September 05, 2006

Keridos Kandengues - Agrião

Como educadora preocupada, tenho-me esforçado por fornecer montanhas de informação ao kandengue HB, reconhecendo hoje, que por vezes o faço precocemente!
Este esforço, nem sempre, o avalio como bem sucedido!
HB tem hoje 14 anos e não pára de me surpreender!
Na pequena viagem diária, de regresso a casa depois das aulas, aproveitamos para fazer o balanço das actividades escolares, e planear o estudo extra aula.
Há poucos dias fiquei destroçada!
Após um teste de Geografia, e partilhando comigo as respostas certas e erradas, HB declara convictamente, que acertou na indicação da cultura de cereais que se pratica nos países representados num mapa.
Dizia ele: -.... arroz, centeio, milho, trigo e.... faltava-me um, Mãe..., mas não houve problema, deu para copiar do Bernardo (colega).....AGRIÃO!
Quase bati no carro que seguia à frente!Sem comentários!!!!!Mãe, sooooooooofre!!!!!!!!!!
Moral da estória: Tenha sempre tudo em ordem com o seu automóvel, especialmente os travões afinados!
Mãe Osiris ) (jinhos para todas as crianças do mundo)

Casa de chá da Boa Nova

A Casa de Chá da Boa Nova
Leça da Palmeira - Porto
Autor: Arquitecto Álvaro Siza Vieira
Projectada e construída (1958-63) num importante período de transição da arquitetura portuguesa. O acesso é feito a partir do parque de estacionamento, através de um sistema de plataformas e escadas perfeitamente integradas.
A entrada localiza-se na zona virada para a estrada, apresentando uma arquitectura sóbria e discreta, não se adivinhando a importancia desta obra, nem como ela se integra e interage com os rochedos e com o mar."... Pela beleza do local onde se encontra, pela integração quase despercebida nesse ambiente, pela sua escala, e volume, é um trabalho feliz e perfeito.
É um local único, de privilégio,....
É inesquecivel o café depois do almoço ou o copo ao fim da tarde, com um pôr-de-sol único, nos sofás de pele cor de chocolate, com o barulho do mar nas rochas que o envolvem.
" António Jorge Tavares, in Cinco minutos com Siza Vieira. (....em vez de barulho do mar, eu escreveria.... a musicalidade cadenciada e permanente do mar, a envolver as rochas que nos habitam.)
Anabela Quelhas

Monday, September 04, 2006

Catedral de Benguela

Catedral de Benguela
(alguém possui dados sobre este edifício? Por favor, Doctor, ajude-me, esta Catedral e a que identifiquei como sendo a de Sumbe, são dois edificios diferentes, certo?)
(fotos enviadas por Carlos Carranca)

Feliz aniversário

FELIZ ANIVERSÁRIO
HOJE O NOSSO FIO SOBRE LIVROS, FAZ DOIS ANOS _ estamos todos de parabéns.Como é um dia super especial vou prestar aqui a minha homenagem à BD, aos seus heróis e já agora, aos leitores que vão sendo cada vez menos, conforme envelhecem.
BD = banda desenhada (narração gráfica, dinâmica onde se utilizam quadros desenhados, normalmente acompanhados de pequenos textos).
A BD creio que tem origem nas próprias pinturas rupestres (estas também servem para referênciar tudo e mais alguma coisa...), e vai-se manifestando ao longo da história através das iluminuras da Idade Média e na caricatura política do sec. XIX. Em Portugal temos a referência a Bordalo Pinheiro e Stuart Carvalhais. Ao longo do séc. XX tornaram-se num verdadeiro meio de comunicação popular.
A linguagem da BD
Vinheta = espaço onde se desenvolve cada cena
Tira = conjunto de vinhetas dispostas na horizontal eocupando toda a largura da folha
Prancha = página completa
Planos = enquadramento das imagens (geral, conjunto, médio, americano, aproximado, 1º plano, grande plano e pormenor)
Ângulos de visão = ângulo a partir do qual se perspectiva a vinheta (picado e contrapicado)
Regras de texto - letras maiúsculas, a negro
Cartucho = fala do narrador (vertical)
Legenda = fala do narrador (horizontal)
Balões = espaços limitados com linhas geralmente circulares destinados ao texto de discurso directo (falas alta, baixa e normal, cruzado, colectivo, cesurado, interrogativo, exclamativo, electrónico, off, pensamento, visualizado, musical, surdina)
Onomatopeias = registos de sons
Signos cinéticos = registos de movimentos
Tipos de narrativa - aventura, ficção ciêntifica, western, histórica, cómica e policial.
Heróis - Asterix, capitão américa, dick tracy, pantera cor-de-rosa, pernalonga, X-men, zorro, calvin, batman, mafalda, tintim, super homem, valentine, yellowkid, e tantos outros. (ajuda-me ALGAC)
13 11 4 5 6 7 8 9 2 13101214 (clicar)
Anabela Quelhas

Ponte sobre o rio Kuanza

Ponte sobre o rio Kuanza
Autor - Eng. Edgar Cardoso
*Localização - 70 Km a sul de Luanda
Função - Ponte rodoviária
Data de construção - 1970/75
Caracteristica - ponte suspensa
Dimensões - Comprimento total: 420,0m / Largura: 9,20m

Esta ponte foi reaberta depois de 21 meses de trabalhos de reabilitação (24 de Janeiro de 2003) realizados pela empresa Teixeira Duarte Engenharia e Construções.
Ponte sobre o rio Kuanza (2) Ponte sobre o rio kuanza (1)

*Edgar António de Mesquita Cardoso (1913-2000) foi o maior engenheiro civil português de todos os tempos. De espírito inventivo e de humor por vezes carrancudo, o mestre, também professor, procurava sempre com grande empenho e entrega, melhorar o seu trabalho. As ponte foram a sua especialidade. Mais do que solucionar os problemas do fórum da engenharia, Edgar Cardoso afirmava que "uma ponte deve ser uma obra de arte".

Palácio da Bolsa

Palácio da Bolsa
R. Ferreira Borges, Porto
A Arquitectura Neoclássica
Na 2ª metade do Século XVIII, a cidade do Porto conheceu um período de grandes transformações do ponto de vista urbanístico e arquitectónico. Sob orientação de João de Almada e Melo, traçou-se um plano que previa a renovação da cidade antiga e o ordenamento das zonas que se estendiam para fora das muralhas. A coordenação dos trabalhos ficou a dever-se à Junta de Obras Públicas, sendo o seu financiamento obtido com um imposto lançado sobre o comércio do vinho.
A reconstrução da Praça da Ribeira, a abertura de novas ruas, e a criação de esplanadas com vista para o rio, são sinais de um novo espírito e do gosto por espaços mais amplos e iluminados, onde a funcionalidade e o lazer constituíam denominadores comuns.
A construção do Hospital de Santo António, um dos vários edifícios públicos com que os Almadas dotaram a cidade, introduziu nela o neopaladianismo, corrente que então imperava em Inglaterra. Este facto traduz bem a influência da colónia inglesa, nomeadamente através do cônsul John Whitehead, autor do risco de outra das construções marcantes nesta época, a Feitoria Inglesa.
Estes edifícios apontam já soluções que serão adoptadas em várias construções que se lhes seguiram, tanto civis, como religiosas: mezaninos, fachadas compostas por superfícies lisas, pórticos e frontões clássicos, janelas de guilhotina.
Data de início de construção - 1842,
Autor: Arquitecto Joaquim da Costa Lima
Influências arquitectónicas: neopaladianismo inglês.
No corpo central, um vestíbulo dá acesso ao Pátio das Nações, coberto por uma estrutura metálica e envidraçada. O pavimento é de mosaico e inspira-se em modelos greco-romanos descobertos em Pompeia. Na restante decoração do interior, destacam-se trabalhos de Soares dos Reis, Teixeira Lopes e António Carneiro.
O Salão Árabe, iniciado em 1862, foi projectado por Gonçalves de Sousa, tendo como modelo o palácio de Alhambra. Os seus ricos ornatos são realçados pela iluminação, que provoca belíssimos efeitos cromáticos.
O Neo-Islamismo
O neoclássico é a tradução de uma fase de revivalismos na arquitectura, desde o revivalismo romano ao grego, ao gótico, ao renascentista, ao barroco, ao islâmico, passando pelos dos anos 40 do século XX.
Algumas correntes europeias e nacionais, vêem assim no passado não uma fonte de inspiração, mas antes um modelo a alcançar.
No século XIX, assiste-se ao desabrochar de um novo gosto estético, que ficou conhecido pela designação de Neo-Islamismo.Vários palacetes e casas de andares foram construídos nessa altura no Porto, denunciando este mesmo estilo. Estas construções localizaram-se nas zonas novas da cidade, como a Avenida da Boavista e entre a Praça da República e a Rua de Cedofeita.As peças mais marcantes deste estilo no Porto são o Depósito da Fábrica das Devesas, na rua José Falcão, o Orfanato e Creche Emília de Jesus Costa, em Gaia e, como obra mais emblemática, o Salão Árabe do Palácio da Bolsa, construído entre 1862 e 1880.

Saturday, September 02, 2006

Mondrian, Vieira da Silva

Mondrian, Vieira da Silva,
..... "Tout l' equilibre d' un tableau de Mondrian dans cet assemblage de bois de récuperation, exemple typique du mussèque Prenda, mussèque qui fait souvent penser au cubisme." Renée Gagnon
"Recordo os musseques de Luanda vistos do ar, e um diapositivo que então fiz - onde eles lembram um quadro de Vieira da Silva." PENSAMENTOS OCASIONAIS - 2 - in"Trabalhos de Antropologia e Etnologia",41,3/4,2001
Fazer analogias lineares entre, obras arte e a expressão arquitectónica, de condições miseráveis de sobrevivência urbana, de milhares e milhares de seres pensantes, que não têm sequer paredes para abrigar a sua gritante miséria, quanto mais pendurar obras de arte!!!.... pode ser perigoso...
.... ler isto escrito, por terceiros... foi coisa que me trouxe um certo desconforto e incómodo psicológico.
Tanto Mondrian, como Helena Vieira da Silva, estão acima de qualquer suspeita, são duas grandes referências na pintura moderna e são profundamente admirados por mim.
Vieira da Silva pintou a geometria do mundo e dos núcleos urbanos como ninguém; e sem dúvida foi sensível à fome e à miséria, manifestando inquietação e inconformismo na sua atitude perante a vida, incluindo no seu exercício, exacerbado e alucinatório (que tanto me agrada), de linhas, movimentos e expressões de cores labirínticas, multiplicadas em progressões geométricas minuciosas, penso que, assumidamente Kafkianas. .... só que, não as designou, ou baptizou de, Katambor, Cazenga, Prenda, Rocinha, Cidade de Deus, Providência, Nanterre, Champigny ou La Courneuve! ... chamou-lhes "La ville blanche", "Porto", "Paris", "Alegresse", "Roterdam", "Mul-ti-tu-de" ... o que faz toda a diferença!!!!...
Anabela Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 2/02/06

Friday, September 01, 2006

Reino Maravilhoso, ainda.


Ainda sobre o REINO MARAVILHOSO, refira-se de novo a existência de um livro com obras de arte, da conhecidíssima e valorozíssima pintora contemporânea Graça Morais, com texto de Miguel Torga.
Há três anos atrás, tendo eu que fazer um agradecimento público a esta grande senhora, criei um texto "VIAGEM NOTEMPO", emoldurado com pinturas da mesma e hoje vou partilhá-lo com todos.
Graça, se me está a ler, mais uma vez e sempre, obrigada !
(Perdoem-me os verdadeiros escritores, pois escrever não sei, e sei que com jeito não se vai lá, eu sou mas é, uma grande atrevida.)
VIAGEM NO TEMPO (clicar e clicar de novo na imagem p/ ampliar)
editado em www.sanzalangola.com em 01/02/06

Reino Maravilhoso

Dedico, este texto de Torga, especialmente a todos os sanzaleiros, que teclaram comigo no último domingo (06/01/29), partilhando a sua alegria pelo inédito fenómeno metereológico, de nevar nas terras do sul, mas desconhecedores do REINO MARAVILHOSO onde me encontrava.
"Vou falar-lhes de um reino maravilhoso.
Embora haja muita gente que diz que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo.
Vê-se primeiro um MAR DE PEDRA.
Vagas e vagas sideradas hirtas e hostis, contidas na força desmedida pela mão inexorável de um deus genesíaco.
Tudo parado e mudo.
Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo de uma grande hora. De repente rasga a crosta do silêncio uma voz atordoadora: "- Para cá do Marão mandam os que cá estão!...". Segue-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro.
Que penedo falou? Que horror respeito se apodera de nós? Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:
- Entre! A gente entra e já está no Reino Maravilhoso.
"Antologia de textos de escritores do século XX - Miguel Torga in Portugal a Terra e o Homem.
Editado em www.sanzalangola.com em 31/01/06

Poemas de amor


Há uns dias atrás alguém referiu o livro "Poemas de Amor" - Antologia de poesia portuguesa - Inês Pedrosa.
Inês Pedrosa reuniu, uma parte dos melhores poemas de amor escritos por poetas portugueses, dando-lhe maior visibilidade com este livro.
No texto que funciona como prefácio, Inês escreve ".... o tempo nunca esteve para a poesia, porque a poesia vai sempre além do próprio tempo." e ainda "O amor à poesia não se aprende - nada do que é verdadeiramente fundamental na vida se aprende - mas pode contagiar-se."
"Senão todos algum
de nós reproduz diversos os mesmos lugares.
E aquela que entra no verso para o
percorrer
atrás da tua sombra serei eu. "
Fiama Hasse Pais Brandão
Osíris
Editado em www.sanzalangola.com em 30/01/06

Catedral do Sumbe

CATEDRAL DE SUMBE - Novo Redondo
Autor: Arquitecto Castro Rodrigues
- Os manuais da especialidade referem semelhanças com templos contemporâneos de Frank Lloyd Wright
*CATEDRAL DE SUMBE

Frank Lloyd Wright - arqto americano, considerado um dos mais importantes do século XX. Os seus principais trabalhos foram a Casa da Cascata (também conhecida por Casa Kaufmann, considerada a residência moderna mais famosa do mundo) e a sede do Museu Guggenhein em Nova Iorque.

Editado em www.sanzalangola.com em 30/01/06

http://carranca.blog.pt/album/145146/photo/405570/

Mercado do Lobito

Mercado Municipal do Lobito
Autor: Arquitecto Francisco Castro Rodrigues
Data de construção:1963

Os monumentos


Quero confessar que não gosto de monumentos. De nenhum tipo. Talvez a única excepção seja o Taj Mahal.
Tenho para mim que a maioria, senão todos, os monumentos representam um tributo à vaidade desmedida, mesclado com um desejo de intimidação. Daí a grandiosidade, luxo, tamanho e, certamente, a inutilidade.
Li há muito tempo, que se por acaso, um dia, seres extra-terrestres desembarcassem na Terra e observassem as Igrejas, Vaticano incluido, não teriam como deixar de pensar que seriam casas de pessoas de enorme estatura, dominando sobre as demais.
Que outra razão aliás existe para que as Igrejas tenham torres que se elevam sobre as demais construções? Para os sinos publicitários? Então porque motivo as portas com tamanha altura?
Aliás há uma similaridade interessante entre o desejo de construição de algo alto, como forma de demonstração de sucesso nas mais diversas civilizações.
Foi no seu apogeu que a civilização da Ilha de Páscoa, construiu aquelas estátuas gigantescas, cada vez maiores, exaurindo recursos para ergue-las, a ponto de acabar com todo o meio ambiente. De igual forma, na Itália, no apogeu haviam as famosas torres, tipo da de Piza. Em Bolonha, chegaram a ser centenas, senão milhares, entre os séculos XIV e XV. Cada nobre construindo uma maior que a de outra família, chegando ao cúmulo de sjustificá-las como forma de combate entre si, com arco e flexa, sem terem que sair à rua. Algumas chegaram a ter quase 100 metros com centenas de degraus, como é o caso da Torre Asinelli.Também os egípcios com as pirâmedes, ou os maias e aztecas, tiveram no seu apogeu, a preocupação da construção de "torres" como numa disputa de quem seria mais poderoso. Exatamente no ápice ( epílogo ? ) do apogeu.
Há uma constante entre todas as torres construidas pelas elites de cada civilização. Acabaram sendo derrubadas, pelos outros, como forma de protesto contra a dominação que significavam. Claro que as pirâmedes não são facilmente derrubáveis, no sentido explícito. Foram apenas depredadas..
Talvez este espírito explique a razão do simbolismo da escolha das Torres Gêmeas do WTC, para os atentados de Nova York. Talvez os terroristas buscassem o simbolismo da derrubada do símbolo do Poder, como forma de traduzir que aquele acto, representasse o ápice do apogeu da civilização ( ? ) americana.
Já agora, me perdoem talvez a heresia, mas não consigo ver nenhuma beleza na Torre Eiffel.
Fernando Quelhas
Fernando:
O Taj Mahal também é imponente e tem uma cúpula gigantesca!.... A sua grandiosidade ainda é reforçada pelo espelho de água localizado no espaço em frente, marcando o eixo de simetria, elevando (visualmente) ainda mais as dimensões do edificio.
A sua construção, e o destino dado ao arquitecto autor de uma das maravilhas do mundo, é uma nódoa negra que ofusca tanta beleza...
Apesar de ter sido construído em homenagem ao amor (dizem), pois o o imperador Shah Jahan mandou-o construir em memória de sua esposa favorita, Aryumand Banu Begam, expressa em simultâneo a afirmação do poder num território de grandes assimetrias sociais.
Através dos séculos, os artistas, arquitectos e poetas recorrem frequentemente a símbolos fálicos, transformando-os em símbolos de coragem, poder e patriotismo, de tal maneira que o público em geral, não se tem apercebido da sua origem nem do seu significado!
Acentuar a verticalidade nos espaços construídos seja sob a forma de, torres, estátuas, obeliscos, arranha céus, implica o tal formalismo fálico que simboliza a afirmação e perpectuação do poder - a teoria de estar mais perto de Deus é muito discutível.
Praticamente todas as grandes cidades têm obeliscos e sentem-se orgulhosas por isso.
Encontramos obeliscos na Praça do Vaticano, na Praça da Concórdia, Coluna Trojana em Roma, a Torre Eiffel em Paris, o Monumento a D. Pedro IV no Rossio, em Lisboa, a Torre dos Clérigos no Porto e o Monumento de Washington na capital americana.
Este altos e gigantescos monumentos são assim convertidos, pelo poder instituído, e para o poder, vangloriar o patriotismo e a história de cada nação.
Anabela Quelhas
editado em
Fernando:
Ainda sobre monumentos, estes não necessitam de ser amados, basta que os respeitem!
O teu discurso tem lógica, mas pensa..., se as pirâmides, as estátuas gigantescas da Ilha de Páscoa e os templos gregos, e muito mais.... não existissem, como seria dificil chegarmos ao conhecimento dessas civilizações!... quem se interessaria pelo Antigo Egipto? Quem queria saber da Ilha de Páscoa?!
Felizmente os monumentos transportam informações preciosas ao longo dos séculos, que serão sempre muito úteis e interessantes, até para os extra-terrestres (não minimizes a sua capacidade de entendimento). Por mim, quando eles vierem, prefiro que se interroguem perante os monumentos que restam, e reflictam sobre a nossa estatura, do que se estareçam perante obras mais vulgares, mas de gosto duvidoso, que não espelham nem dignificam a cultura contemporânea, constatando a nossa falta de imaginação e inabilidade estética.
O poder na sociedade, existe, não há como escondê-lo!!!!
(será muito bom que os ETs achem que somos gigantes, antes de tomarem o poder, assim "darão corda aos sapatinhos" e irão embora rápidinho. "A TERRA P'ROS TERRÁQUIOS, JÁ E SEMPRE!") )
editado em www.sanzalangola.com em 31/01/06

O urbanismo, a arquitectura e a saúde

Osiris:
Apesar de não ser especialista no assunto, gostaria de colocar uma opinião.
A arquitetura pode e deve ser entendida como uma atividade associada à arte. Talvez uma arte um pouco diferente, já que não se prende apenas a questões de natureza estética.Tenho para mim que, o dificil é mesmo conseguir-se obter uma harmonia estética ( no contexto artistico propriamente dito ) compatibilizada com a utilidade e o bem estar do usuário final do produto que resulta da arquitetura e já agora, do urbanismo.
Assim é que neste enfoque, muitas vezes deve olhar-se a arquitetura, tal qual qualquer outra manifestação cultural e artística, no âmbito da eventual prioridade para a sociedade em geral.
Sei que posso estar suscitando controvércia, mas a realidade é que em Luanda ( tal qual em outras cidades ) subsistem questões básicas de urbanismo que para mim,ultrapassam, em muito, a simples questão estético/artistica. Refiro-me a problemas que vão da coleta do lixo ao esgoto ( tive a experiência de ver como Luanda ficou após uma forte chuva em termos de esgotos e dejetos pela rua, misturado com a lama e lixo ), entre tantos outros, que estão por resolver e, obviamente, exigem investimentos vultuosos, vis a vis, a necessidade de preservação de determinados prédios com interesse histórico.
Será que vale a pena priorizar a preservação de determinado edifício e ao mesmo tempo deparar-se com um "submarino estranho" flutuando na ponta da ilha bem perto de nosso rosto enquanto nadamos numa água, só aparentemente limpa? Claro que se os recursos forem suficientes deve-se olhar todos os lados, mas e se não acontecer isso? O que priorizar?
Amiga. Acho que o que começaste a colocar em termos de qualidade de vida, nas tuas últimas mensagens é o que realmente importa. Eu quero é saber quantas casas poderão passar a ter água canalizada e tratada. Eu quero é saber sobre a redução da mortalidade infantil como resultado de melhor qualidade de habitação, atendimento médico e saneamento.
Talvez estejam achando que estou radicalizando. Provavelmente sim. Perdoem-me o desabafo.
Em termos arquitetônicos aliás, em Luanda, tirando os "caixotes" dos espigões em construção, ficou-me na memória a linda casa ( vila? ) construida, salvo erro pelo presidente, ou pela filha poderosa, no Miramar com uma linda vista para a Baía. Fabulosa em todos os sentidos.
Um abraço
Fernando Quelhas
O urbanismo, a arquitectura, a saúde, a economia, o ambiente, e muito + dependem em 1º lugar da vontade polítca de construir algo positivo!
O urbanismo é uma área que logicamente mexe em muitos interesses, estuda a transformação das cidades e aponta soluções para problemas de organização e planeamento de território, mas prevalece sempre o interesse do poder instituído, que se serve dos técnicos do urbanismo e não só, para almofada de certas incongruências e desrespeito por certos compromissos assumidos perante os cidadãos.
É confortável e fácil atirar a culpa para o urbanista. Acho que estamos todos de acordo, que prioridades são proridades e ponto final! No entanto as respostas às prioridades que obrigatóriamente têm de ser executadas, para atender às necessidades básicas de todos, devem ser bem planeadas, pelos a médio prazo, para resultar em algo positivo e racional. Se não for assim, passamos a vida a "fazer e a desfazer" - atitude que se desenha sempre mais dispendiosa, certamente!
A arquitectura, é uma área artistica (sempre foi), mas não superflua. Pelo seu conteúdo, relaciona-se com tudo o que diga respeito às pessoas, e à forma de habitar e viver o espaço.
Beleza, funcionalidade, economia, sociologia, ergonomia e ambiente, não podem viver zangadas, de costas voltadas, ignorando-se mutuamente! É dificil conciliar interesses? Claro que é! Soluções perfeitas não existem!... já é bom estar-se no caminho certo, lutar o mais possível pelo direito à dignidade de cada um, e, não optar por atalhos fáceis, com consequências não planeadas ou imprevisiveis, que afetam todos.
Voltando ao património - é importante, desenvolver nos cidadãos, o conhecimento e depois o amor pelo património das suas cidades - lutar por ele (veja-se o exemplo dos holandeses) - sejam elas, Luanda, Londres, Rio de Janeiro ou Xangai. O património arquitectonico, é uma referência cultural de todos, só que é muito mais fácil preservar mùsicas, objectos, danças... ocupam pouco espaço, e não interfere com tantos interesses financeiros. Especificamente, importa "moldar" consciências e desenvolver vontades, por forma a evitar que se cometam atrocidades em nome de falsos progressos, inseridos nesta sociedade de consumo global.
Fernando e Tomás, o "belo" não tem que ser obrigatóriamente dispendioso, nem pular por cima dos direitos fundamentais do ser humano.
Penso que estamos de acordo.
Um abraço
Anabela
Editado em www.sanzalangola.com em 24/01/06

Edifício Mutamba

Mais um edifíco da baixa de Luanda catalogado nos manuais da especialidade:
Edifício Mutamba e actual Ministério da Habitação e Obras PÙblicas de Angola
Autor- Arq. Vasco Vieira da Costa.
Editado em www.sanzalangola.com em 20/01/06

Favela ou musseque

Anabela
Parabéns pela iniciativa deste fio. Apesar do tema ser basicamente arquitetura, verifiquei que muito do que se escreveu tem mais a ver com urbanismo do que com arquitetura, se bem que as duas áreas sejam bem próximas.
Uma boa parte dos serviços de cartografia que minha empresa executa destinam-se exatamente a fins urbanisticos. Seja para projetos específicos na área de infra-estrutura ( distribuição de água, luz, esgoto, telefonia, etc. ) que exigem mapas de precisão, seja para fins de planos diretores de urbanismo.
Aliás, é nessa área que estou desenvolvendo iniciativas para, eventualmente, se tudo der certo, vir a trabalhar mais profundamente com Angola.
Começando pelos musseques ( aqui chamamos de favelas ) há muito, os urbanismas irradicaram a ideia que a solução seja irradicar a favela ( passe o trocadilho ).
Há um certo consenso de que a solução passa por métodos de urbanização ( arejamento ) e melhoria de padrão habitacional, mantendo-se as populações residentes.Aqui no Rio temos até participado de um projeto chamado de Favela-Bairro, que embute essa filosofia.
Acho que o caminho é esse, se bem que tem sido deveras prejudicado por razões envolvendo questões de segurança e banditismo.
Muitos dirão que banditismo e insegurança são questões que extrapolam o urbanismo. Discordo. É no urbanismo que eventualmente irão se encontrar soluções para questões sociais que têm reflexo na segurança.
Fernando Quelhas
Fernando:
Irradicar favela ou musseque, pode ser transferir população para zonas mais periféricas, instalá-las em edifícios de habitação social, totalmente desenquadrados do modo de viver desta gente; operação que agrada aos especuladores imobiliários, que vêem uma grande oportunidade de negócio nos terrenos desocupados - estamos cansados de operações deste género no mundo inteiro!
É necessário aproveitar as más e as boas experiências para construir dinâmicas urbanas planeadas e participadas, para servir de suporte à renovação do tecido urbano dos musseques e favelas, sem por em causa os interesses da maioria dos seu habitantes.
Oportunamente voltarei ao assunto.
Anabela
Anabela:
Há uns 10 anos participámos de um projeto que me presenteou com algum ensinamento.
No Ceará, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas - DNOCS, decidiu construir uma represa para projetos de irrigação.
Além de toda a parte topográfica e fotogramétrica destinada à identificação do perímetro de irrigação e questões técnicas de engenharia, o projeto envolvia uma área muito importante. É que uma cidade, acho que se chamava Castanhão, seria totalmente inundada e haveria que construir uma outra para o assentamento das famílias.
Para tal, em paralelo à escolha e trabalhos técnicos relativos à localização da nova cidade, efetuou-se um trabalho de cadastramento dos imóveis e das famílias que seriam desalojadas. Antes, era muito comum que este trabalho prescindisse questões de natureza social. O ênfase era meramente para o tecnicismo da construção. Achava-se que as famílias ficariam plenamente satisfeitas por receberem um imóvel novo, de qualidade e tamanho superior. Isto quando simplesmente não eram desalojadas e pronto.
Eis que neste caso, decidiu-se ir mais além na avaliação das motivações e desejos sociais, incluindo perguntas específicas no laudo cadastral.Para surpresa de todos, verificou-se que os moradores atribuiam muito mais importância a valores intangíveis do que aos materiais. A grande preocupação, não era quanto ao tamanho da sala ou da cozinha. Era se continuaria ou não sendo vizinha ( curiosamente eram as mulheres quem mais colocavam estas questões ) da comadre tal. Se continuaria tendo vista para a Igrejinha, etc. As maiores perdas sentidas não se referiam a quartos, mas sim à perda da sombra da árvore em que brincaram quando crianças. Se teriam novo coreto na pracinha. No fundo queriam que as tradições fossem o menos afetadas possível.
Enfim. É importantíssimo que quaisquer acções sobre populações atendam, na medida do possível, a aspectos de natureza psicológica e social da população.
Projetos que visem a simples irradicação, construindo-se prédios bem longe, serão mais de natureza cosmética. Serão um pouco como jogar o lixo debaixo do tapete, preocupando-se com a simples aparência sem resolver, de facto, a questão. Estes projetos estarão sempre condenados ao fracasso.
Fernando Quelhas
Editado em www.sanzalangola.com em 16/01/06

100 anos de livros

Não resisto em registar no nosso fio, uma homenagem à Livraria Lello & Irmão (R. das Carmelitas 144, Porto - Junto à Torre dos Clérigos) - inaugurada no mês de Janeiro de há 100 anos atrás.
Em estilo neogótico, património nacional, possui uma grande sala distrubuída por dois pisos, com galerias, uma escada ornamental e vitral de tecto.
Apetece passar por aqui, uma, e outras tardes , na companhia dos livros e dos bustos de ilustres homens de letras: Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Tomás Ribeiro, Teófilo Braga e Guerra Junqueiro.
A leitura realizada aqui tem outro sabor!

Osíris
livraria lello
"Fio": Arquitectura e as cidades
Editado em www.sanzalangola.com em 28/01/2006