ARKIVÃO

ARKIVÃO - espaço para reunir o que vou escrevendo ao longo do tempo, e que se encontra espalhado por aí; arkitectura, referências a terra de origem, divagações disléxicas; tentativa de organização, mas sem critério e por vezes sem cronologia; organização anárKica, incompleta, de conversa da treta, assinada através de diversos pseudónimos.... mas nem tudo estará aqui. Anabela Quelhas

Friday, July 21, 2006

Musseques de Luanda

A cidade de Luanda concentra 3 cidades:
1 - A cidade "colonial" - centro administrativo, dos negócios e urbanizada antes de 1974.
2 - Os musseques - onde moram a maioria dos citadinos.
3 - Os subúrbios de luxo.
OS MUSSEQUES DE LUANDA
A palavra musseque tem origem no kimbundo (mu seke) e significa areia vermelha.A um dado momento, musseque, passa a designar os grupos de palhotas, que se adensam no alto das barrocas e que por semelhança à SEKE (vermelho ocre) toma o nome do material (areia) sobre o qual se implantam. O seu desenvolvimento está intimamente ligado ao da cidade propriamente dita.
A partir de 1962, a febre da construção civil e o lançamento da indústria, fascina cada vez mais as populações rurais que abandonam os seus locais de origem e migram para a cidade grande, Luanda. Estas gentes instalam-se nos musseques e reagrupam-se segundo as suas origens. Os musseques passam a designar o espaço social dos colonizados, assalariados, reduto da mão de obra barata e de reserva, ao crescimento colonial, colocados à margem do processo urbano, surgindo como espaço dos marginalizados, e cuja fisionomia está em constante transformação.
Em 1974, Luanda conta com quase meio milhão de habitantes onde se inclui 340.000 africanos. Nessa época, na planta da cidade, já se podem distinguir três grandes zonas de musseques, organizadas segundo as principais linhas de expansão da cidade:
- A este - localizam-se os musseques mais antigos, Sambizanga, Mota, Lixeira, Marçal, Rangel (o mais populoso), Adriano Moreira e Cazenga (o mais extenso).
- A sul - Calemba, Cemitério Novo e Golfe.
- A sudoeste - Catambor e Prenda, este último "premiado" no início da década com um arranhacéus de betão.
No meio da cidade nova e completamente engolido pelas novas avenidas, e respectivas construções, localiza-se o pequeno B.O. (bairro operário).
O aspecto construtivo diferenciado surge de acordo com a origem dos seus habitantes, a sua ocupação e o grau de adaptação à cidade; existe sempre um traço comum - a organização do espaço.
O musseque é fechado sobre si mesmo, num entrelaçado complexo e orgânico de ruelas, "pracetas" e corredores. As ruas são estreitas, verdadeiros corredores ou espaços de passagem, com a largura de um homem, desconhecendo qualquer tipo de planeamento, respondendo apenas à possibilidade de acesso peatonal aos espaços mais reconditos do coração do musseque, ocupando apenas os pequenos espaços sobrantes entre cada construção. Estes corredores são delimitados pelas próprias construções e por vedações, sustentadas por estacas, e fechadas com diversos materias recuperados nos lixos e abandonados nas obras (lata e desperdícios), fazendo lembrar verdadeiras paliçadas, interrompidas por janelas e portas com as mesmas características.
A configuração caótica e fechada, favoreceu, a formação da personalidade e da identidade nacional no seio do povo, o desenvolvimento da resistência ao colonialismo e a construção de um espírito revolucionário, que tanto inspirou poetas, contadores de histórias e cantores populares.
A história tem confirmado ao longo do tempo (para mal de qualquer ditadura), que a densificação urbana permite a organização e a propagação de ideais revolucionários.
As recentes destruições causadas pela guerra civil, os massacres, e o exôdo das populações do interior, à procura de refúgio dos combates, transformam completamente o aspecto dos musseques de Luanda.
A população actual de Luanda é de 4,5 milhões de habitantes, perto dos 5 milhões - 8 vezes mais que em 1974 - provocando a exaustão da cidade, com ¾ da população a viver em musseques.
Ao longo de três décadas, os musseques deixam de ser bolsas da malha urbana Luandense, passando a grandes manchas disformes, ao redor do núcleo urbano, que foram crescendo desordenadamente, sem qualquer controle, ignorando qualquer determinação urbanistíca (não existe uma polítca de desenvolvimento urbano), absorvendo cada vez mais pessoas, e sem condições de salubridade.
A comuna N'Gola Kiluange, situada na área de Sambizanga tem uma população, estimada em 1994, de 125.000, com crescimento anual de 18%.
As casas, ou se preferirem, os espaços precários destinados à função de habitar, são construídas em adobe, com frágeis fundações, outras, não passam de barracas ou refugios improvisados; concentram-se junto das estradas, desadaptadas à morfologia dos terrenos de suporte, não resistindo por vezes às enxurradas da época das chuvas torrenciais e com esgotos a céu a aberto.
A inexistência de infraestruturas, redes de abastecimento de água, electricidade, recolha de esgotos, águas pluviais e de lixos, é uma constante ameaça à saúde pública - malária, tuberculose, cólera, hepatite, mortalidade infantil elevada, etc. - empurrando esta gente, esquecida e amontoada ao longo dos anos, para níveis de extrema pobreza.
14/01/2006 - editado em Sanzalangola
Anabela Quelhas

6 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Olá estou a iniciar um pequeno trabalho sobre os bairros "de lata" de Luanda (os musseques) e gostaria de saber se me poderia dar algumas dicas sobre alguma bibliografia que seria útil e imprescindível consultar.
Muitos parabéns pelo seu Blog...

Cumprimentos

Gilberto Freitas

11:27 AM  
Blogger Fernando said...

Li com grande interesse o seu texto sobre os mussequesde Luanda. Tendo estado em Angola e em Luanda por um período muito curto de tempo, fiquei impressionado pelo que vi. A resolução do problema requer mais que dinheiro e meios; requer vontade e, em minha opinião, políticas de relocalização voluntária de populações nas suas regiões de origem. Muito há que fazer em Luanda e nas outras cidades devastadas pelas guerras.

6:53 AM  
Blogger a. quelhas said...

Obrigada.
Agora estou no:
http://blogdangola.blogspot.com/

10:20 AM  
Blogger DM said...

Olá, sou universitário brasileiro e estou fazendo uma pesquisa sobre Literatura Angolana, mais especificamente Luandino Vieira e o livro A Verdadeira Vida de Domingos Xavier e foi muito útil ler a sua descrição dos musseques, melhor que a definição de qualquer outro site. É muito importante o trabalho de divulgação das realidades e artes angolanas, principalmente por pessoas que já tiveram a oportunidade de conhecer pessoalmente certas localizações. Obrigado pelo bom trabalho.

9:44 PM  
Blogger Valverde said...

Boa noite,chamo-me Lúcia, nasci em Luanda, no Bairro Salazar, indo depois para o Bairro Prenda, vivia num bairro em frente ao musseque de Prenda, onde havia uma padaria e uma mercearia nesse musseque, sei que essas propriedades eram de brancos. Brinquei bastante no pouco tempo que lá vivi, que foram 7 anos, os meus amigos eram de raça branca e de raça preta, éramos todos uma família, era do melhor que havia nessa altura, era tudo amigo do seu amigo, muito diferente de portugal.

3:13 PM  
Blogger a. quelhas said...

Valverde, agradeço o seu comentário.

4:48 PM  

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