ARKIVÃO

ARKIVÃO - espaço para reunir o que vou escrevendo ao longo do tempo, e que se encontra espalhado por aí; arkitectura, referências a terra de origem, divagações disléxicas; tentativa de organização, mas sem critério e por vezes sem cronologia; organização anárKica, incompleta, de conversa da treta, assinada através de diversos pseudónimos.... mas nem tudo estará aqui. Anabela Quelhas

Friday, September 29, 2006

QUE SE CUIDEM!

O termo ateu, significa ausência de Théos.
Ser-se ateu, não significa perfilar uma qualquer crença ou sistema filosófico, ideológico, político ou organização social.Ser-se ateu é ser-se livre, racional, não dogmático, ultrapassando a posição agnóstica das escolhas e das incertezas.
Assim me sentei na igreja de S. Domingos, na baixa lisboeta, num sábado de tarde, neste mês de Sto António, reflectindo sobre isto. Passam-se anos, e eu esqueço-me daquele espaço! ... para mim, é único, junto à baixa pombalina. Naquele dia dei-me ao luxo de lá estar duas vezes, de manhã, de tarde - oi Zé! Hello Olga!
O ateísmo já deu direito à fogueira!Sentei-me a reflectir, a recordar cada parede brutalmente nua, cada coluna, rude, áspera, cavernosamente a testemunhar a história, e as aflições dos humanos, desde o sec. XIII. Recordei-a como local de referência da dinastia de Avis, de baptismo de judeus que forçosamente se converteram em cristãos, visualizei as chamas e vivenciei os ritmos vertiginosamente sísmicos de 1755.
Senti a indignação dos crentes perante o terror da peste, nas ruas quinhentistas.
Fechei os olhos e senti os sons... na ausência deles, os cheiros da "heresia" e do sal espalhado pelos terreiros por ordem de um Iluminatti e de outros ainda mais sombrios.
Continuei a sentir o cheiro adocicado de carnificina de todos os mártires desta Lisboa feita de mourarias.
Que se cuidem, Camus, Sartre, Freud e tantos outros! Que sorte viver dois séculos mais tarde!
"Fé é não querer saber o que é a verdade" ... mais outro, Nietzsche!
Oh Galileu Galilei!!!! Escapaste por pouco!
Imaginei o silêncio, seccionado pelas rezas, pelo recolhimento dos dramas de todos, na esperança de escutar algo divino, que justifique tudo o que se passa na vida de cada um.
Ser-se ateu é respeitar a fé dos outros, ser-se solidário, e se possível ajudar a reforçar a crença ou mesmo a fé de um amigo, que lhe serve de eixo orientador em dado momento, apesar de não acreditar... apesar de não crer... mas emprestar o coração a fundo perdido.
Respirei fundo, esquadrei cada recanto com o meu olhar observador, distraindo-me na ausência de ornamentos, na pureza do vazio generalizado.
Filtrei ainda mais a luz acolhedora, com um piscar de olhos, galgando memórias até ao infinito.
Questionei incertezas, configuradas ao longo dos anos, e outras, frescas, mas não menos importantes e essenciais em mim.
De que é feito um ateu?
Confirmei a simetria da nave, percorrendo o eixo longitudinal, na certeza de assumir toda a responsabilidade sobre os meus actos, assumindo a consciência de mim... será isto um ateu?
Sentir a liberdade de poder sentar-me em qualquer espaço, de recolhimento ou... nem tanto, confrontando-o comigo e respeitando sempre os diferentes.
A fogueira queimava realmente! pira de lenha, elemento essencial, em cerimónias que obedeciam a rituais rigorosos, rituais de terror e de medo levado às ultimas! Autos de fé, resumidos a tortura, penitência e morte - A queima como espectáculo, como acto piedoso de assar gente viva.
Sou simples, cumprindo a fé em mim, sem espreitar em qualquer tipo de narcisismo.
"Ser ateu é ater-se ao presente e simplesmente vivê-lo..." gosto desta frase escrita nem sei bem por quem...
...percorri o perímetro da igreja, tentei adivinhar os dramas que cada rosto encerra, abrindo-se em esperança do acender de uma vela.
Atravessei o guarda vento, desviei-me dos mendigos, que teimam em habitar na minha consciência, e saí.
A. Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 29/06/2006

6 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Lhe descobri apenas hoje, mas vou voltar para ficar lendo com muita atenção, pois é assunto que me interessa.
Mª Rita

5:39 PM  
Anonymous Anonymous said...

Este é massa! Tem muita coisa para ler e reflectir... vou lendo ao longo dos dias. Uma abraço
Maria Rita

2:39 PM  
Anonymous jo said...

O dom da fé não inclui necessáriamente o dom da certeza.

É um acto de aceitação.

a.s.

(tou cada vez mais filósofo - LOL)

2:48 PM  
Anonymous Marroquino said...

Ana a foto caresse de um pouco mais de "iluminação", até parece que, ali não habita Deus

5:38 AM  
Blogger ana d'or said...

Obrigada por me visitarem.

JO: Tu agora... ninguém te apanha!

Marroquino:Deus tambem gosta de estar na penunbra... para raciocinar... repousar... descansar as vistas... refazer-se das maleitas.

10:02 AM  
Anonymous Antonio said...

Nem todos teem o previlegio da revelação.Por isso muitos por muito que busquem andarão sempre às escuras

3:57 PM  

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