ARKIVÃO

ARKIVÃO - espaço para reunir o que vou escrevendo ao longo do tempo, e que se encontra espalhado por aí; arkitectura, referências a terra de origem, divagações disléxicas; tentativa de organização, mas sem critério e por vezes sem cronologia; organização anárKica, incompleta, de conversa da treta, assinada através de diversos pseudónimos.... mas nem tudo estará aqui. Anabela Quelhas

Thursday, November 09, 2006

Guerra das cidades


A guerra com que se entretêm e divertem os meus vizinhos sanzaleiros, faz-me recordar aquela pequena guerra: o meu Porche é melhor que o teu... mas eu também tenho um Mercedes Benz, um Matra Sinca e um Lamborghini ... que afinal não nos leva a rigorosamente nada!
No entanto é uma guerra saudável porque nos faz despertar as inquietações e as emoções que nos ligam aos lugares, aos sítios, às ruas...que por coincidência ou não, se centram num país, único no mundo, ANGOLA.
O que nos faz apreciar mais uma cidade do que outra?
Opção puramente estética?
O equilíbrio existente ou não, entre os espaços construídos e os espaços livres?
A ortogonalidade característica da malha urbana das cidades tipicamente novas?
A arquitectura orgânica ou a arquitectura planeada? A toponímia? A gastronomia?
O futebol?
As árvores que sombreiam as ruas?
A história que emerge em cada esquina?
Serão estes os parâmetros que nos fazem oscilar entre os conceitos de o mais ou menos bonito?...
bebo serenamente o meu chá verde, gostosamente lapis lazúli...
Cidades - povoações de maior categoria de um país, áreas urbanizadas, áreas mais densamente povoadas.
O que nos faz gostar menos de uma cidade?
A ausência de limpeza do espaço colectivo?
As cores do pôr-do-sol espelhadas nos vidros das janelas?
O cheiro das lixeiras?
Os desamores que lá se vivem?
O tempo que se perde sentado a um volante?
Porque se gosta mais desta do que aquela? Consegue-se conversar com umas e não se consegue escutar as outras?
Como funciona isto?
A diferença estará nas pessoas que lá habitam, os seus usos e costumes?
Ou será uma questão de pele, propositadamente irracional, que mexe com os cinco sentidos, os nossos?
Será o apelo do cordão umbilical que nos pressiona a construir raciocínios ausentes de lógica, indicadores de opções profundamente sentidas, e emocionalmente paradigmáticas?
Já estou como o outro, quando lhe agrada um local... já fui muito feliz em Vila Nova de Mil Fontes!
Eu já fui muito feliz no Porto, em Coimbra e em Lisboa... LOLOLO. Tento sempre ser feliz em Barcelona, imagino-me feliz em Sounion, fui ingenuamente feliz em Luanda.
Espreito a felicidade sempre que transformo algo, numa existência renovada...toque de Midas? ...uffff nem tanto...Será uma soma de tudo e ou de coisa nenhuma?....
Luanda além de ser morfologicamente bonita, fotogenicamente bela, tem história, tem cheiro, tem contrastes, tem sentimento, tem sangue nas veias, é o ortocentro de África... e é essencial que contenha a minha infância e adolescência, para que se converta numa expressão matemática Verdadeira, traduzida nos eixos xis e ipsilones dos meus afectos, através de uma curva parabólica que supostamente deveria limitar um oceano, mas que afinal se circunscreve apenas no eixo z.
Complicado?
... afinal a terra é redonda!
...é o cordão umbilical a gritar mais alto!
...são as corridas de criança por entre os mangais,
...é a flor de acácia no cabelo,
...é a pesca à linha na Restinga
,...é o churrasco no Kuanza,
...são os meninos do Panguila,
...é o preto Jerónimo (1),
...são os mergulhos na Barracuda,
...é a turma da Vila Alice,
...é a esplanada do Mónaco,
...é o gelado na SAPU,
...é o lanche na Versailles,
...é a onda inesquecível do pessoal da rádio
...é o merengue mornamente dançado,
...é a musica da Bonzão,
...é a desatada da sangria,
...são os westerns do Kipaka
...são as estreias do Império,
...é a Fuentovejuna no Avenida,
...é o figo da índia da Eugénio de Castro,
...são as apaixonites da Combatentes,
...é o beijo no Miramar,
...são as meninas LGL nas suas minis,
...é o abandonar do soutien,
...é a idade das escolhas e da politização,
...é o poster do Che,
...são as novidades vindas de Paris,
...é a Alliance Française,
...são os carrinhos de rolamentos
...é a rampa das Ingombotas.
..são as idas ao fardex da Casa Branca,
...é a matacanha no dedão,
...é a subida ao coqueiro,
...são os livros proibidos,
...é o Carnaval na marginal,
...são as esperas no aeroporto,
...é o aroma forte de fuel de avião,
...é o jogo do abafa,
...Oi JACARÉ, JACARÉ
...é o néon da Tamar,
...é o rock dançado na Adão,
...são os autógrafos na Tara,
...é o imaginário do BO,
...é o observatório da Mulemba,
...é a colega Vandunem,
...é o aterrar constante dos helicópteros...
é o hospital militar,
...são as loiras do Punta del Paso,
...são as calças com boca de sino
...é o missionário italiano,
...são as queimadas de capim,
...são as visitas a Massangano,
...é a estrada de Catete,
...é o cheiro do Cacuaco,
...é a Dodge estacionada,
...é a gincana do 9 de Junho
...é uma osga no tecto,
...é o camaleão na parede,
...é adrenlina em cima de um Buggy,
...são as BDs em 2ª mão,
...é a dança do Jacob (2),
...é o prego do Majestic,
...é a rebita na cubata do Gasolina,
...éhh bananéeee, bananéeee&...
é a muamba do fundo de quintal,
...é a conversa com Segunda Jamba (3),
...é o misturar de areia e cimento numa obra qualquer,
...é o esticar do aço no Kikolo,
...é a moagem da farinha,
...é o desconfiar que nem tudo corre bem,
...é o despertar da justiça social,
...são os Vampiros proibitivamente escutados,
...é o sapato mata barata ao canto
...é o arame farpado do Grafanil,
...é o desfilar da quitandeira,
...é o adorno de missanga,
...é o cigarro fumado para dentro,
...são os temperos de Beatriz(4),
...é a buganvília laranja,
...é a girafa embalsamada do museu,
...são os aceleras na rotunda da alameda,
...é a saída das traineiras,
...são os snipes na baía,
...são os calcinhas de Luanda,
...é a Sra. da Muxima,
...é a formiga salalé,
...é a terra vermelha na sapatilha,
...é a lixeira a céu aberto,
...são as cascas de banana no chão do porto,
...é o sinaleiro da Mutamba,
...é o suor da 1 hora da tarde,
...é o magro salário de Gingolita(5),
...é o prédio azul da Cuca,
...é o poeta visitado na cadeia,
...é o jogo da bola sobre a areia,
...é o cacimbo de Agosto,
...é o espreitar de uma varanda,
... o despertar da puberdade,
...é o "je t'aime moi, non plus",
...é o óleo de dendém,
...são as montanhas de laranjas,
...são as fotos de Catalacassala,
...é a água do Bengo,
...são as enxurradas nas Barrocas,
...é a conversa mole de Conceição(6),
...é trepar a um coqueiro,
...é a alforreca da Corimba,
...é a caldeirada ao domingo,
...é a sombra dum cajueiro,
...é chupar cana no mercado de S. Paulo,
...são as makas do bairro Prenda,
...é o sangue negro igualmente vermelho,
...é a goma do kiabo,
...é a casca da ginguba,
...é gindungo na vez do sal,
....é o amor de coração aberto.
...é o tempo que não volta nunca e por isso me atrevo a localizá-lo numa cidade bela.
Depois há aquele ditado: quem feio ama, bonito lhe parece!
Serão os sentidos que procedem às escolhas?
O registo saudosista pode entorpecer a mente...
...acabo o chá, que já esfriou!
...afinal, todas as cidades são bonitas pois inscrevo nelas o melhor de mim.
(1) Jerónimo - preto de Luanda, limpador de escadas dos prédios dos brancos, sempre atencioso para as crianças.
(2) Jacob - ilustre papagaio, verdadeiro multiplicador de sons, autor de diversas zaragatas animais no bairro Salazar.
(3) Segunda Jamba - preto bailundo de pés duros, esclarecido politicamente, consciente do seu desempenho proletário, e que primeiro (precocemente, talvez) me fez reflectir sobre as assimetrias sociais.
(4) Beatriz - preta quase cega, sem idade definida, óptima a cozinhar e dona de um lindo sorriso, mesmo que desnudado de dentes.
(5) Gingolita - operário de sol a sol, descendente de escravos embarcados para o Brasil, timidamente honesto, humildemente trabalhador fabril.
(6) Conceição - o preto mais malandro de Luanda, gingão, homem de muitas mulheres e de múltiplas dívidas.
(Uma pequena homenagem a todos eles)
Anabela Quelhas
editado em www.sanzalangola.com em 17/08/06

2 Comments:

Blogger borralho said...

um belo retrato de uma bela terra e de uma época.obrigado

10:46 AM  
Anonymous Anonymous said...

A saudade, ás vezes aperta!!!

6:36 AM  

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